CAVACO ENTRA NA BATALHA DE GURUS

 


“Cavaco Silva hoje não seria militante do PSD mas sim do CHEGA!”, escreveu André Ventura na rede social X em 18 de Março de 2023. Olhe que não, decidiu retorquir o visado, três anos depois, através de um ensaio para o jornal Expresso. O artigo exprime quase todos os cambiantes da palavra ensaio: é um texto de análise (fortemente condicionado pela sua condição de militante do PSD), é uma tentativa (de disputar a influência no partido) e é uma reprimenda (à oposição). Apesar de ter sido publicado na secção “Ideias” (normalmente reservada a peças de algum fôlego, densidade temática e rigor académico), tem um cariz avassaladoramente político e ocupa, em termos efectivos, pouco mais de uma página, apesar de se espraiar por três.


Cavaco começa por lembrar que sem um crescimento da ordem dos “3%-4%, Portugal continuará a ser um país da União Europeia relativamente pobre”. Ignorando o ministro Miranda Sarmento, que declarou não ser difícil pôr o país a crescer acima dos 3% e arrisca chegar a 2028 sem atingir os 2%, o ensaísta preferiu sublinhar a importância da “redução da burocracia”, elogiando o ministro da Reforma do Estado, dando como exemplo “ideias certas” como a “carteira digital empresarial”. A Carteira Digital da Empresa concentra informação útil, mas o acesso à documentação lá presente, se feita de forma individual, pode ser obtida em menos de 10 minutos. Quando se alude à burocracia do Estado, equacionam-se, designadamente, a morosidade dos licenciamentos e a complexidade da contratação pública. O exemplo da Carteira Digital da Empresa é risível ou, no mínimo, revelador de superficialidade na exposição do argumento.


As considerações acerca da pobreza do país (ponto 2 do ensaio) descambam no último parágrafo para o descolamento da realidade. Cavaco defende que a “comunicação social e as redes sociais [sublinhado meu], no quadro de uma informação esclarecedora dos seus leitores e ouvintes” deveriam dedicar “mais espaço às políticas determinantes do crescimento económico”. Não só promove a amálgama entre meios distintos com responsabilidades diferentes e credibilidade diversa, como persiste em expor a sua visão instrumental dos média, lamentando a “difusão de notícias do Portugal negativo” e que, alegadamente, se ignore a “baixa taxa de desemprego”.


A terceira e última parte do curto ensaio é dedicada à defesa do Governo e à censura da oposição. O Governo, diz Cavaco, tem “espírito reformista”, mas, aparentemente, deixou-se “aprisionar pelos problemas da conjuntura” e sofre de lentidão de processos ou de tendência para a procrastinação, dado que o ensaísta faz questão de escrever que “depois de anunciadas as reformas devem ser discutidas o mais rapidamente possível na Assembleia da República”. Como se trata de um “Governo minoritário”, vê-se confrontado com “acções de desgaste” por parte da oposição. O PS está “carecido de discernimento” e tem “falta de coragem” para as mudanças necessárias. Já o Chega revela “uma óbvia impreparação técnica” e exibe um “discurso teatral do ódio, do insulto, da calúnia e da mentira”, o que inviabiliza a construção de uma sociedade com “um crescimento económico saudável”.


Como as “eleições antecipadas podem mesmo agravar os problemas do país”, e o “Chega é destituído de credibilidade política”, Cavaco Silva parece entrar na batalha dos gurus para (ao contrário de Passos Coelho) defender uma espécie de bloco central informal, aproveitando para atirar para a arena o nome de Sá Carneiro, cujos “textos sobre o exercício do poder em Portugal” estudou, estando convencido de que ele “lutaria com todas as suas forças” contra André Ventura.


Se Cavaco e Montenegro coincidem no desprezo pela comunicação social, e no perfil “rural” permeado pelo secretismo e pela aversão à transparência, divergem na definição da estratégia de sobrevivência. Enquanto a oposição se reabilita e o “espírito reformista” se mede por proclamações, o mestre da táctica ainda resiste à colossal avaliação negativa do Governo e permite-se ignorar as cartas e as cartadas da oposição. Se à crise da habitação e aos “constrangimentos” na saúde se juntar uma espiral inflacionista e a subida das taxas de juro, não haverá apelo ao “discernimento” que lhe valha. E se há coisa que os portugueses que não auferem rendimentos a rondar a dezena de milhares de euros mensais (que não dão “para pagar as despesas”) não precisam que lhes digam é que o DINHEIRO NÃO CAI DO CÉU.


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