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CONFISSÕES NO SOFÁ DA SALA

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  “People think that dance music is superficial But they’ve got it all wrong The dance floor is not just a place It’s a threshold a ritualistic space Where movement replaces language”           Madonna “One Step Away”   Eu lembro-me apesar de já terem passado mais de três décadas. Lembro-me da mistura caótica de liberdade, juventude e celebração e da levemente incómoda proximidade do despropósito que me deixava sempre aquém da euforia. Haveria sempre um momento algures na noite em que entre os fumos perfumados, as luzes irrequietas e os corpos abandonados ao ritmo, eu me interrogava o que estava a fazer ali. Não era desamparo, muito menos desespero, era apenas a chegada de uma sensação de vazio, de uma indiferença narcótica. O ritual começava com a ronda dos bares, o que para mim não passava de enfadonhos preliminares, estações para a gratificação adiada da abertura da pista da discoteca. Não que me desagradassem compl...

AVE, MADONNA!

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  Fazendo fé em T. S. Eliott, “Abril é o mais cruel dos meses, germina / Lilases da terra morta, mistura / Memória e desejo”. Foi nesse mês propício ao agitar das raízes da criatividade que em 1982 Madonna fez a sua estreia discográfica com o tema Everybody . O seu mais recente disco inclui uma canção chamada Everything . De todos a tudo, eis a medida da ambição de uma carreira a caminho do meio século, infatigável na luta pela relevância artística e pela perenidade do estatuto de ícone. Toda ela, a carreira, se desenrolou debaixo de uma suspeita e de uma acusação: a avidez desmedida pela fama e a sucessiva alteração da sua imagem encobririam a superficialidade do seu projecto artístico e atenuariam as suas débeis, diziam, capacidades vocais e interpretativas. Seria, decretaram, a protagonista de um sucesso efémero, um cometa cujo brilho em breve se dissolveria na bruma do oblívio. Procuraram reduzi-la a uma produtora de pastiches dos símbolos sexuais da idade dourada de Hollywo...

QUIZ DE VERÃO

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  1.      “Sabia que o bem, como o mal, é uma questão de rotina, que o temporário se prolonga, que o exterior se infiltra no interior e que, com o decorrer do tempo, a máscara torna-se face.”   a)      Marco Aurélio    b) Luís Neves     c ) Marguerite Yourcenar   2.      “Se há alguma coisa que repugne ainda mais a um militar do que a desonra , como eles dizem, é realmente a desordem.”   a)      Jonathan Littell        b) José Milhazes   c) Ulysses S. Grant   3.      “Por que será que as prostitutas se tornam tão formais quando se regeneram? É como se de súbito tivessem vindo à tona as ambições longamente reprimidas de uma bibliotecária.”   a)      Pedro Passos Coelho    b) David Foster Wallace   c) Woody Allen   4.   ...

DIRTY LUÍS DO LADO DO BEM

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  Temos um ministro da Administração Interna que personifica o arquétipo do anti-herói, para quem os procedimentos (a burocracia, as regras processuais) são um estorvo. Um licenciado em direito que alega o desconhecimento da lei, um ex-operacional que prendeu “milhares de bandidos”, alguém que ficou “sempre do lado do bem”, mas que nunca foi “um homem de expedientes, de papéis”. Daí que a entrega ad hoc de bidões que continham químicos para fabricar cocaína a um depositário prestável seja qualificada como um “acto de extraordinária gestão” (tal como a detenção de “milhares de bandidos” terá constituído um acto de extraordinária bravura).  Como sucede com todo o anti-herói solitário, por condição e por necessidade, todos lhe falharam: o vendedor que não o informou que a propriedade   que iria adquirir estava em “área condicionada”, os “profissionais competentes da estrutura” que podem não ter assegurado “os procedimentos e a documentação” relacionados com a galera, o Trib...

ESTE MUNDO É PARA OS BELOS

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  Discriminação estética. Preconceito baseado na aparência. Estas são definições possíveis para o lookism . Leio o título do artigo no site da New Yorker - Devemos fazer mais para combater o lookism ? - com a sensação de estar prestes a navegar num território pantanoso algures entre a auto-ajuda e a futilidade. E, no entanto, não é possível minimizar a dor, o sofrimento psíquico, o potencial devastador de um rótulo (a fealdade) que corresponde a uma desconformidade face a um padrão de beleza triunfal. Os espoliados  da beleza ficam expostos ao desdém dos escolhidos pelos deuses, à crueldade dos comentários maldosos, ao confronto com a repulsa alheia. Mas não só. A sua condição, por assim dizer, constitui uma desvantagem competitiva, visto que, conforme Joshua Rothman lembra no artigo, “as pessoas bonitas têm mais facilidade em ganhar dinheiro, encontrar parceiros e até ganhar causas em tribunal, enquanto que as pessoas pouco atraentes são julgadas com mais severidade, trata...

O CASO DO EMPREITEIRO ATRELADO AO MINISTRO

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  “A ameaça da extrema-direita é muito maior, têm armas, matam, ameaçam, coagem.” “Não existe uma relação entre aumento da criminalidade e aumento da imigração.” “Estamos a assistir a um momento de desinformação, fake news e ameaças híbridas e é isso tudo que leva a fundamentar a percepção de insegurança.” Estas três afirmações de Luís Neves contribuíram para tentar centrar o debate político no território dos factos e não das construções ideológicas ou das estratégias de comunicação política. O dano colateral foi torná-lo persona non grata para a direita radical e para os seus tenores na comunicação social. A sucessão de notícias acerca do relacionamento do actual ministro da Administração Interna com um empreiteiro de Barcelos está a ser encarado por alguns quadrantes como uma manobra de desqualificação e um ataque cerrado aos procedimentos e ao carácter de Luís Neves, no fundo uma retaliação pela sua firmeza na fidelidade a factos “inconvenientes”. Infelizmente, os dados até ...

O ESTADO DA NAÇÃO (SOCIAL-DEMOCRATA)

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Fontes, daquelas fontes que jorram mais informação para o Expresso que as torneiras de Almada brotam água, dão conta da inquietação no partido e no Governo. “As pessoas não estão melhor e não tem havido resposta para isso”, dizem uns. Falta “iniciativa política” e alguns “ministérios estão totalmente parados”, acrescentam outros. Há ministros que se queixam de que, escreve a jornalista Paulo Caeiro Varela no Expresso , “o primeiro-ministro não dá resposta a alguns temas do dia a dia da governação”. “Altos responsáveis do Governo e do PSD” têm uma explicação psicanalítica para um estilo de decisão assente na deliberação de um “núcleo muito fechado” – as sequelas do caso Spinumviva, que terão deixado Montenegro “amargurado” e com uma predisposição pouco cristã (“não perdoa o que lhe foi feito”). Com 61% dos portugueses a classificarem o Governo como mau ou muito mau (sondagem ICS-ISCTE- Gfk Metris), tudo indica que a estratégia de colar o rótulo de reforma a toda a produção legislativa e...