O PRINCÍPIO DE PEDRO
Pedro Passos Coelho anda por aí. Envergando
por cima do fato do desprendimento o sobretudo da responsabilidade cívica.
Porque é um homem de princípios e convicções. Espoliado da geringonça, D.
Sebastião sexagenário, outrora apelidado pelos amigos de “Obama de Massamá”, o
ex-primeiro-ministro, entre conferências e apresentação de livros, vai
oferecendo os seus contributos para o debate político, alcançando uma projecção
mediática outrora reservada a figuras como Cavaco Silva.
Certamente relevantes para a evolução do seu pensamento político terão sido a sua experiência na área da formação profissional e a participação numa ONG empenhada em apoiar projectos em países em vias de desenvolvimento. No primeiro caso, as vicissitudes inerentes à formação de técnicos camarários para aeródromos municipais, para a qual a Tecnoforma, de uma forma louvavelmente ambiciosa, chegou a elaborar um projecto avaliado em cerca de 1,2 milhões de euros para acabar por receber apenas 312 mil euros do programa Foral, poderão tê-lo levado a meditar na burocracia do Estado ou nas contingências da lei da oferta e da procura. Já no caso da ONG (Centro Português para a Cooperação) financiada pela Tecnoforma, tendo “desde cedo” atribuído importância “à intervenção de Portugal no contexto da lusofonia”, Passos Coelho recordar-se-á de 2 projectos que não tiveram o “sucesso desejado”. Motivo? Faltaram o “apoio da cooperação europeia”, num caso, e o patrocínio das “Nações Unidas e do Banco Mundial”, no outro. É bem possível que estes reveses tenham contribuído para a formação de um espírito mais inclinado para a auto-suficiência, ou que tenham suscitado alguma meditação acerca das suas aptidões para congregar esforços ou criar sinergias. Mesmo o facto de desconhecer que teria de pagar contribuições para a Segurança Social, por exercer actividade enquanto trabalhador independente, terá sido útil por tornar evidente a necessidade de simplificação do sistema tributário e contributivo.
Já primeiro-ministro, em plena gestão da crise económica, conjugou dois dos seus interesses, a emigração/imigração e o “contexto da lusofonia”, para sugerir que os professores que não tivessem ocupação em Portugal poderiam procurar emprego em Angola ou no Brasil. A necessidade de estimular a capacidade de resistência e de reacção perante a adversidade levou-o a fazer equivaler o desemprego a uma “oportunidade”, bem como a censurar as atitudes “piegas”, condescendentes. Adepto da necessidade da liberalização da economia e da flexibilização da lei laboral, propôs-se reduzir a TSU das empresas e aumentar a contribuição dos trabalhadores, algo quem alguém sintetizou, com uma clareza que certamente o próprio Passos Coelho apreciaria, como uma transferência de rendimento do trabalho para o capital. Ressabiado, porventura sentindo-se injustiçado, vaticinou em Julho de 2016 que o Diabo chegaria em Setembro, dando início a uma variação de uma peça de Beckett.
No ano da graça de 2026, o que quer Pedro
Passos Coelho? Duas teses principais
ganharam tracção: ou ele aposta numa manobra activa de tomada de poder, minando
o poder de Montenegro ao demonstrar o bluff do “reformismo”, ou está
convencido de que este vai acabar por ser derrubado pelo Ministério Público. O
princípio que norteia a sua acção é o da ruptura, da libertação da economia do
que ele perspectiva como o excesso de regulação estatal, da libertação da
sociedade do que ele encara como o paternalismo esquerdista. Subscreverá com
convicção a tese de que “o socialismo mata” com a mesma leveza e a mesma
inconsciência com que o PSD encara o significado do S e do D na sua sigla. O
seu sentido de urgência não compactua com a ficção do reformismo que o mestre
da táctica que chefia o Governo erigiu, e que sectores da comunicação social
glosam. “Temos de passar dos discursos à prática e é preciso começar a dizer ‘a
reforma estrutural é urgente’. Já houve muito tempo para pensar, trabalhar os
cenários (…), mas agora esse tempo acabou”, afirmou Passos Coelho, citado pelo Público.
O que pode salvar Montenegro de ser apeado na
próxima estação pelo furacão Passos? O estado de calamidade decretado na
sequência do comboio de tempestades, que tende a estimular consensos e a
rejeitar fracturas. E a própria noção de que Passos Coelho poderia ser, ele
próprio, uma calamidade.

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