SOB O ESPECTRO DO RACISMO
41% dos portugueses acham
que “a convivência entre diferentes raças ou etnias quase sempre causa
problemas”. 23% defendem que há “raças ou etnias por natureza mais inteligentes
do que outras”. Estima-se que 15% se sintam “incomodados” perante a visão de
pessoas negras em “posições de poder e influência”. 17% sustentam que a
“mistura de raças ou etnias pode enfraquecer a evolução biológica da espécie
humana”. Estes são dados de uma sondagem ICS/ISCTE para a SIC e para o Expresso,
cujos trabalhos de campo ocorreram em Setembro de 2020. É caso para perguntar
em que espécie de seres humanos nos estamos a tornar. E meditar nas palavras de
Teresa Violante (Expresso – 26/12/2025), não apenas sobre os limites da
tolerância (“a tolerância ilimitada do intolerante conduz à destruição da
tolerância.”), como também acerca dos deveres da democracia (“a democracia pode
– e deve – defender-se de quem instrumentaliza as suas liberdades para minar a
igual dignidade de todos.”)
Esta foi a semana em que o
espectro do racismo pairou sobre um campo de futebol. Esta foi a semana em que
o repúdio epidérmico e a afirmação de um princípio basilar da convivência
humana foram preteridos em favor de fervores clubísticos, teses sobre
coreografias aceitáveis para a celebração de um golo, discussões semânticas e
denúncias de liberdade de expressão amordaçada pelo wokismo. Esta foi também a
semana em que ficámos a saber que as contribuições dos imigrantes para a
Segurança Social ascenderam, em 2025, a 4162 milhões de euros. Como os
benefícios que usufruíram totalizaram, no mesmo período, 827 milhões de euros,
a Segurança Social registou, neste contexto, um saldo positivo de 3335 milhões.
A secretária de Estado da Segurança Social, Susana Filipa Lima, apressou-se a
concluir que os estrangeiros representam “um contributo positivo para a nossa
economia”. Não basta, evidentemente, a racionalização de dados
económico-financeiros. O combate ao racismo e à xenofobia tem de ser um
adquirido civilizacional e representar um compromisso de eliminar uma violação
dos direitos humanos.
Este foi também o mês em que
o presidente dos Estados Unidos partilhou na sua rede social um vídeo onde o
ex-presidente Obama e a sua mulher eram apresentados como macacos, recorrendo a
uma representação que teve origem no chamado racismo científico e foi
sucessivamente usada com intuitos de subalternização e desumanização. A América
que resiste, a Humanidade que resiste, está também na capa de uma revista
glamorosa, com Teyana Taylor a segurar a tocha da liberdade e da democracia, ao
mesmo tempo iluminando o caminho e incendiando a esperança. E em jeito de
epígrafe, no canto inferior esquerdo, versos do poderoso poema de Langston
Hughes, I, Too, onde o “darker brother” antecipa um amanhã em que
reclamará que, também ele, é América.

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