O MEU LOBO ANTUNES É O DAS CRÓNICAS

 


Deixo para os especialistas as grandes considerações sobre o arrojo formal, o virtuosismo estilístico ou o engenho do romance polifónico. E a análise da eterna demanda da perfeição na construção do grande romance português. E a averiguação da forma como, partindo de reflexões íntimas, transformou uma espécie de monólogo interior num discurso universal. O meu Lobo Antunes, porém, é o das crónicas, que ele depreciava, esses portentos de economia narrativa, misto de memórias pessoais e análise sociológica, onde figuras comuns, arrancadas a quotidianos só aparentemente banais, eram elevadas à grandeza do protagonismo literário. Sobre elas pousava o seu olhar azul, que não prescindia da ternura ou da compaixão, mesmo quando transportava uma censura.


O meu Lobo Antunes é o da angústia do condutor na altura de encarar o amarelo do semáforo (“A consequência dos semáforos”); das tias cujos “animais domésticos eram os pobres”, para as quais, aliás, “o plural de pobre não era pobres. O plural de pobre era esta gente.” (“Os pobrezinhos”); da divorciada solitária, “lindíssima” com um “blazer da Escada e uns sapatos vermelhos”, a passar a noite “a mudar de canal e a ouvir o pêlo da alcatifa crescer.” (“A solidão das mulheres divorciadas”); do marido cuja “discrição era o seu forte” e que “faleceu sem aborrecer ninguém” – “suspendeu serenamente os talheres por cima dos filetes com arroz de grelos (…) e aterrou de queixo no cestinho do pão” (“Da viuvez”); ou do, pelo contrário, inconveniente Antero a quem a mulher implora: “espera até chegarmos a casa e morre então se quiseres mas não aqui [na esplanada] Antero, que mau aspecto, que vergonha” (“Não morras agora que estão a olhar para nós”).


O meu Lobo Antunes é o das crónicas atravessadas pelo humor. “Esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas”. Matar a “família de desgosto [é] a melhor forma de assassínio por nunca se encontrar a arma do crime”. “Aquilo que em linguagem clínica se chama um mentecapto em linguagem militar chama-se um coronel.” “Quando eu estava em África (…) as mulheres eram a forma mais divertida de empobrecer, o jogo a mais rápida, os gestores a mais eficaz.” (“Crónica dedicada ao meu amigo Michel Audiard e escrita por nós dois”)


Dulce Maria Cardoso declarou ao Público que lê António Lobo Antunes “como um garimpeiro à procura de pepitas de ouro”. A minha percepção como leitor é a de que ele se interessou por procurar essas pepitas em cada pessoa por quem se interessou, sondando a pureza, a raridade, a beleza em estado bruto. No fundo aquilo que ele denominou de “sinais interiores de riqueza” e que serviu para título de uma crónica onde se pode ler: “As palavras grandiosas como Trabalho, Família, Dinheiro, atravessam-me sem me tocarem. Dá ideia que não sei viver com os que amo ou que rejeito o seu afecto: não é verdade. (…) E gosto de pessoas modestas porque os sinais interiores de riqueza me comovem.”

 

 

Todas as citações são do “Livro de Crónicas”, Publicações Dom Quixote, 1ª edição: Novembro de 1998


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