MONTENEGRO ANALYTICA
É preciso que se note que há um contexto.
Como explicou em artigo no Expresso, o primeiro-ministro considera
fulcral “incentivar e estimular o jornalismo ‘puro’”, o único que pode
“contrariar a desinformação, as fake news e a manipulação desregrada que
pulula nas redes sociais, com a aparência de jornalismo”. Do mesmo modo, o
jornalismo deve comportar-se de forma “menos ofegante” e abster-se de se
mostrar “insistente” ou “empenhadíssimo”, ao mesmo tempo que recusa transmitir
perguntas “sopradas” via auricular.
Para veicular a visão do executivo, e
assegurar a fiabilidade da informação, foi criada a secretaria-geral adjunta
para a comunicação do Governo, em relação à qual, de acordo com um artigo da
revista Sábado, se desconhece “quantos profissionais de comunicação [a]
integram” e quais os seus nomes, não sendo possível “estimar o seu peso
orçamental para o erário público”. O que remete para a questão crucial da
transparência. Segundo a revista, Daniel do Rosário coordenará uma equipa que
rondará a dezena de pessoas, entre “fotógrafos, videógrafos e copywriters”. E dado
que gabinete do primeiro-ministro “tem uma pessoa dedicada a cada um dos canais
de comunicação de Montenegro”, Leitão Amaro (a quem eu geralmente me refiro
como o “ministro da Propaganda”) funciona como “pivô entre os ministros: recebe
as agendas de todos, organiza-as para garantir que não há sobreposições e
distribui ‘guiões’ com os principais tópicos dos discursos públicos de cada
ministro”.
Garantida a constituição de uma equipa que
fornece informação pública de qualidade (e que até faz fact-checking”),
o passo seguinte só poderia ser o de contratar uma plataforma que monitorize as
“grandes tendências de opinião expressas sobre temas de políticas públicas”.
Uma das funções será a de “dar suporte à decisão política e o acompanhamento da
acção governativa”, conforme esclareceu a secretaria-geral do Governo. A
plataforma em questão, Newswhip, oferece aos governos a identificação e a
“gestão de problemas”, a “monitorização” do impacto de anúncios e políticas, a
“monitorização” e a investigação de campanhas de desinformação e uma “análise
interdepartamental”. A Neswwhip assegura ter “parcerias oficiais com todas as
grandes plataformas, incluindo Facebook, Instagram, X e Reddit”, e garante
“dados actualizados que evidenciem os níveis previsíveis de adesão pública para
cada tema”.
Apesar de a Newswhip assegurar ter “linhas éticas” robustas, só recolher e tratar “dados públicos” e “respeitar de forma
estrita a privacidade”, o jornal Correio da Manhã aludiu à possibilidade
desta ferramenta poder ordenar os
jornalistas “cuja cobertura está a ter maior repercussão” numa espécie
de ranking. O Governo resumiu o trabalho da Newswhip a um “tipo de clipping
moderno”. A questão essencial é que dados serão recolhidos e o que vai ser
feito com eles. E se uma ferramenta que aparenta vir a ser utilizada mais como
meio de propaganda do que como instrumento de comunicação de políticas públicas
deve onerar o erário público, ainda para mais suscitando preocupações em
relação ao uso dos dados sistematizados. Na memória de todos ainda permanece o
escândalo da Cambridge Analytica, sintetizado por Diogo Queiroz de Andrade, no Público
de 20 de Março de 2028, desta forma: “Uma empresa especializou-se em usar dados
recolhidos nas redes sociais para manipular as emoções dos utilizadores e
conquistar votos para quem paga mais”.
No caso em apreço em 2026, quem paga é o
Governo português. Como a tolerância ao escrutínio é escassa e a transparência
relutante, esperemos que seja só “clipping”, enquanto se recomenda
vigilância democrática. Afinal este é o Governo dirigido por um
primeiro-ministro que se gabou de que “nunca ninguém foi tão transparente” como
ele enquanto mantinha em actividade uma empresa familiar que, na formulação de
Pedro Adão e Silva, “continuava a facturar serviços de natureza bastante
indeterminada a empresas da região onde sempre exerceu influência política”. A
mesma pessoa que, apesar de ter em tão má conta as redes sociais (e manifestado
intenção de apresentar queixa contra uma publicação satírica de um utilizador
do X), parece ser suficientemente ingénuo para, nas “linhas de actuação” do Plano Nacional de Literacia Mediática 2025-2029 defender que se deve “Sensibilizar
influenciadores digitais, celebridades e criadores de conteúdos para que,
assegurando a responsabilidade social exigida aos profissionais de media,
partilhem com seus seguidores diferentes aspetos e temas relacionados com a
literacia mediática, especialmente aqueles que se vinculam à sua própria
atividade”.

Comentários
Enviar um comentário