PSICOPATA AMERICANO
Ninguém poderá argumentar que era
imprevisível que esta presidência protagonizada por uma espécie de imperador
demente acumulasse sinais erráticos, atacasse direitos civis, torpedeasse a
separação de poderes, corroesse o Estado de direito, legitimasse o discurso de
ódio e instituísse uma “linha política” cuja base, fluida, é o desejo
quotidiano de um líder narcisista. O slogan da “carnificina americana”
cedo deixou de ser um diagnóstico para se transformar num anúncio. O apocalipse
abriria o caminho para a regeneração.
A edição de Janeiro/Fevereiro de 2024 da
revista The Atlantic dedicou o grosso das suas páginas a responder à
premissa que inscreveu na capa: Se Trump ganhar. O editor Jeffrey
Goldberg explicava a opção da revista pelo facto de achar preocupante que o
“Partido Republicano se tivesse hipotecado a um demagogo antidemocrático
completamento desprovido de decência”. No mesmo artigo, relatou o excerto de
uma conversa que teve com Jared Kushner, no início do primeiro mandato de
Trump, na qual aludiu à incivilidade do presidente. O comentário do marido da
“primeira filha” foi: “Ninguém desce mais baixo [“go as low”] do que o
presidente. Nem vale a pena tentar.” E, para surpresa de Goldberg, disse-o como
se fosse um elogio.
Sob o lema A próxima presidência Trump
será pior, duas dezenas de autores
reuniram argumentos. David Frum, por exemplo, recordava que Trump “opera
fora dos limites normais do comportamento humana, já para não falar do
comportamento político normal”, prevendo que, com ele na Casa Branca, “o mundo
tornar-se-ia no teatro das suas políticas de vingança e recompensa”. Anne
Applebaum discorreu sobre o abandono da NATO, avaliando o respectivo impacto
nas restantes alianças de segurança da América e o seu efeito no “declínio da
influência económica”. Caitlin Dickerson previu uma política de imigração com
uma “abordagem vale-tudo” (“anything-goes approach”). Sophie Gilbert alvitrou
que “as mulheres seriam alvos”. Franklin Foer vislumbrou uma possível evolução
de um “exercício improvisado de corrupção mesquinha” (primeiro mandato) para
“um abuso sistemático dos poderes governamentais”, no fundo a instauração de um
“Estado mafioso”. Juliette Kayyem vaticionou o reforço das organizações de
extrema-direita e Megan Garber o declínio da verdade. Jennifer Senior evocou as
palavras de Masha Gessen; “Eleger Trump uma vez, é um infortúnio. Elegê-lo duas
vezes, é normal. É o que este país é.” Trump é a América e a América é Trump?
Eduardo Lourenço, em Portugal como Destino,
aludiu a uma América que, “ao fim de dois séculos, se promoveu a povo eleito”,
e “só conversa consigo própria (…) como espírito de Deus ou sua histórica
encarnação”, para, de seguida, formular uma questão e ensaiar uma resposta.
“Que destino fica reservado aos povos que não comungam nesta apoteose de uma
América convertida em ‘Internet de Deus’? Reinventar uma outra cultura
radicalmente diferente, não por enraizar em tempos mais antigos ou supostamente
menos bárbaros – que todos o são -, mas por não se imaginar, como a americana e
desde o seu início, imune ao Mal e destinada democraticamente a comungar, por
convicção ou sem ela, no êxtase ao mesmo tempo natural e transcendente da sua
pradaria celeste.”
Agora que uma espécie de psicopata americano
está empenhado num director’s cut de um filme-catástrofe chamado
Carnificina Americana, emitindo, através das redes sociais, fatwas pejadas
de linguagem profana (“Open the Fuckin’Strait, you crazy bastards, or you’ll be
living in Hell”) a “Internet de Deus” pode estar a experimentar problemas de
ligação. A democracia americana parece ter evoluído para um autoritarismo
competitivo com laivos de teocracia. E Donald Trump é o género de pessoa que
apreciaria ser tratado por Líder Supremo, como a figura religiosa máxima da
teocracia islâmica iraniana. Ou, melhor ainda, como uma espécie de substituto
de Deus, com elevado grau de autonomia. O que é, convenhamos, bem melhor do que
ganhar o Nobel.
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