TEATRO NUM DIA DE ABRIL
No dia 25 de Abril de 2026, o
primeiro-ministro almoçou com um “herói português”. Não fosse Abril, eu até
suspeitaria de que Luís Montenegro estava a confundir golpes militares – o de
28 de Maio de 1926 com o de 25 de Abril de 1974. E que teria escolhido marcar o
dia com um repasto com um cidadão nascido em 1927, cuja infância, juventude e
parte significativa da idade adulta coincidiram com a ditadura militar e com a
ditadura constitucionalizada. Montenegro podia ter escolhido almoçar com Ruy de
Carvalho (estimável e ilustre actor) em 27 de Março (Dia Mundial do Teatro),
mas não era a mesma coisa. A sua marca de água é retirar todo o simbolismo à
data (25 de Abril), embrulhá-la no celofane da celebração familiar, esbater a
memória, desvalorizar a evocação. Pode ser inconsciência, táctica ou pura
sonsice. Não consegue é resistir a produzir inanidades deste calibre: “O teatro
muitas vezes está à frente do seu tempo porque dá uns sinais de alguma ficção, antecipando
coisas que ainda não acontecem na nossa vida quotidiana, mas que pode vir a ser
a nossa forma de estar de agir, de nos relacionarmos com os outros.”
Um outro “actor”, canastrão, escassamente
versátil, mas que se salienta pelo estilo pouco subtil e martelado, emergiu no
Parlamento. Começou o discurso pausadamente, mas antes de decorrido um minuto
já testava os decibéis, agitando as mãos e os dedinhos e trocando de pés numa
dança de inquietude. Repetindo slogans (“apunhalados pelas costas “ – expressão
impressiva, historicamente carregada de significado, provocatória, repetida 7
vezes), berrou da tribuna como se estivesse num comício, num monólogo enxameado
por chavões dirigidos sobretudo à sua clientela eleitoral. Homenageou os
“antigos combatentes” das “antigas províncias”, trocou os imigrantes pelos
emigrantes (simbolizados pelo cravo verde) e citou Sá Carneiro. Erigindo-se em
representante da “nova classe de silenciados”, o protagonista do monólogo
enveredou pela exemplificação daquilo que Montenegro apelidou de “alguma
ficção”: a mãe coragem desesperada por não ter lugar na creche para o seu filho
porque os imigrantes têm prioridade; o casal que não consegue casa porque a
câmara” “só constrói para os ciganos”. Dizem que é eficaz. Enquanto discursava,
na bancada acima e na bancada abaixo, as caras fechadas nem sequer tentavam
disfarçar o incómodo com um sorriso amarelo. Ventura, sempre em overacting,
é mais cansativo que persuasivo, mas entusiasma, sobretudo os que deploram a
contenção, o minimalismo da nuance, o rigor da sobriedade. Na gíria política
tornou-se comum citar a “cassete” do PCP para classificar um discurso focado
mas repetitivo. Ventura criou a sua própria “cassete” e concentrou em si os
papéis de dramaturgo e intérprete. É o actor que interpreta sempre o mesmo
papel. À frente de um grande elenco de 59 figurantes (incluindo um número
assinalável de figurões).
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