ISRAEL - ESTADO DE IMPUNIDADE
O relatório da Comissão de Inquérito
Independente nomeada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU determinou que as
acções de Israel em Gaza “constituem genocídio”.
Para a Associação Internacional de Académicos
de Genocídio “as políticas e acções de Israel em Gaza cumprem a definição legal
de genocídio do artigo II da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e
Punição do Crime de Genocídio”.
Um relatório do Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Direitos Humanos associa “a intensificação de ataques, a
destruição metódica de bairros inteiros e a negação de assistência humanitária”
a um objectivo de “mudança
demográfica permanente em Gaza”. O que
conjugado com “as deslocações forçadas, que parecem ter como objetivo um
deslocamento permanente, suscita preocupação pela limpeza étnica em Gaza e na
Cisjordânia".
Stefan Talmon, especialista em direito
internacional, recusou a classificação de genocídio, mas considerou que Israel cometeu
“o crime de guerra de usar a fome como arma de guerra”.
O impacto da campanha militar tem sido
devastador: o número total de mortos aproxima-se dos 73 000; mais de
38.000 mulheres e raparigas foram mortas em Gaza entre outubro de 2023 e o
final de 2025; dados da UNICEF divulgados em Outubro de 2025 apontavam
64 000 crianças “mortas ou mutiladas em toda a faixa de Gaza, incluindo
pelo menos mil bebés”; estimativas divulgadas pelo The Guardian revelaram
que as vítimas civis poderiam representar, até ao início de 2026, até 83% do número total de mortos em Gaza.
Omer Bartov, historiador israelita, afirmou
em declarações ao Expresso que a memória do Holocausto tem sido
instrumentalizada por Israel para justificar a violência em Gaza. E foi
taxativo noutro aspecto fulcral para a “justificação” de toda uma política:
“Israel não está sob ameaça existencial. O maior perigo para o país vem de
dentro.”
Em Março deste ano, Francesca Albanese,
relatora especial da ONU, declarou enfaticamente que para Israel “a tortura
tornou-se efectivamente uma política de Estado, sustentada por uma cultura de
tortura socialmente gerada, politicamente defendida e publicamente
normalizada.” Chamou-lhe “uma licença para torturar palestinianos”.
Israel, diz-se, é a única democracia na
região. Uma democracia que explora a culpa associada a um passado histórico
trágico e turbulento como salvo-conduto para a ignomínia. Que bem duradouro, que virtuosa solução final
ou provisória para a questão palestiniana, resultará da complacência, vizinha da cumplicidade, do mundo
perante as atrocidades cometidas por Israel? Que clareza moral, que conceito de
justiça, que sentido de humanidade podemos reclamar, se cairmos na tentação (na
cegueira) de reduzir toda a censura ao anti-semitismo? A vítima de ontem é o
carrasco de hoje, movendo-se sob o signo da insustentável leveza da impunidade.
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