MINISTÉRIO PÚBLICO - SEM MEIOS E SEM OLHAR A MEIOS
“Sem reforço de meios, não temos capacidade
de resposta”, declarou enfaticamente Amadeu Guerra no Parlamento. O paradoxo do
Ministério Público é que invocando permanentemente a falta de meios, parece não
olhar a meios para atingir os seus fins, questionáveis, quando não transpondo
com garbo o limiar do abuso de poder.
A corporação aprecia o aparato, certamente
justificável pela envergadura das operações. É o caso dos cerca de 400
inspectores e peritos e dos 7 magistrados envolvidos na Operação Imergente.
Como foi o caso dos 270 investigadores e peritos da PJ, acompanhados por dois
juízes de Instrução Criminal, seis magistrados do Ministério Público e
seis elementos do Núcleo de Assessoria Técnica da Procuradoria-Geral da República
que, graças ao recurso a aviões militares, fizeram uma aterragem segura e espampanante
na Madeira. Aspectos desta última operação foram severamente criticados pelo
antigo PGR Cunha Rodrigues, que não só lembrou que “os aviões militares não são
uma empresa de transportes”, como também considerou os 21 dias que os arguidos
estiveram detidos para interrogatório como “insuportáveis” e “uma espécie de
corruptela das normas”. “Corruptela” contra a corrupção.
Aparentemente, não parece haver no Ministério
Público quem equacione a viabilidade da estratégia dos megaprocessos,
permanecendo intacta a ambição megalómana da investigação totalizante, que
abrange todas as ligações, como se o fraccionamento minimizasse a amplitude da
prática criminosa. Da mesma forma, prossegue vibrante a estratégia da punição
mediática, do walk of shame, da condenação perante o tribunal
popular. A ligação entre meios de comunicação social, e jornalistas com
“informação privilegiada”, e a Justiça é indesmentível, numa relação vista como
mutuamente vantajosa. O recente episódio, ocorrido no âmbito do julgamento de
José Sócrates, que poderá valer a Rosário Teixeira um processo por falsas
declarações (primeiro negou qualquer contacto com a jornalista Felícia Cabrita
acerca da Operação Marquês e depois admitiu que ela “terá procurado
confirmar” determinados factos), exemplifica bem a relação promíscua e, ao
mesmo tempo, o esforço ingénuo e inglório de negar a evidência.
Em Julho de 2023, o ex-líder do PSD Rui Rio
provocou um atraso nas diligências da equipa da Polícia Judiciária que lhe
bateu à porta às 7 da manhã. Numa notável manobra de resistência, indignação e
sarcasmo, só lhe permitiu o acesso cerca das 10 horas, ao mesmo tempo que
entretinha a comunicação social do alto da sua varanda: “Vão descobrir os
crimes todos que cometi, estou lixado. Estou cheio de medo. É o dia pior,
porque vão descobrir tudo o que eu roubei.” Em causa estava a suspeita de uso de
fundos da Assembleia da República para pagar a funcionários do partido. A ideia
de ligeireza e de frivolidade nos procedimentos, de indiferença “aos danos
colaterais que provoca”, levou o ex-director do Público, Manuel Carvalho,
a comentar nestes termos a absolvição de destacados políticos na Operação
Tutti-Frutti: “O palavreado das garantias, a sinuosidade dos processos, a
falta de meios do Ministério Público ou as carências da Polícia Judiciária não
bastam para tolerar esta subversão de liberdades e garantias. O que aconteceu
com Duarte Cordeiro ou Fernando Medina, o que acontece com tantos cidadãos
anónimos (…) é um abuso inaceitável.”
Da mesma forma que os fumos de corrupção
ferem de morte a noção de serviço público da actividade política, a suspeita de
que uma elite de magistrados do Ministério Público está contaminada pelo
populismo justicialista, permitindo-se sabotar direitos e garantias, gera
preocupação pelo seu impacto na saúde da democracia e do Estado de direito. Em
Dezembro de 2023, Miguel Sousa Tavares escreveu no Expresso que “entre
nós só há um poder que, na lei e na prática, ninguém controla a não ser ele
mesmo: o Ministério Público”. E acrescentou que o MP gozava de um “estatuto de
impunidade funcional”. Dois anos depois, Paulo Mota Pinto, entrevistado pelo Público,
descrevia a “sensação de que há aqui um poder dentro do Estado que tem conexões
com certos meios de comunicação social e que está em roda livre”. E lembrava
que “um governo de maioria absoluta cai por causa de umas investigações, que
ainda hoje não se percebe bem o que são, que são logo a seguir desmentidas
veementemente por um juiz e dois anos depois ainda não se sabe de nada”.
O recurso à instrumentalização dos meios da
Justiça para satisfazer ânsias pessoais ou corporativas de ajustar contas com
os “poderosos” não se limita à classe política, embora esta seja o alvo
preferencial. As denúncias recentes do juiz Ivo Rosa, alvo de devassa da vida
provada e de 8 inquéritos-crime (todos arquivados, alguns sem que qualquer
diligência tenha sido feita), que ele qualifica de “manobra de intimidação e de
retaliação”, são a prova de quem ninguém está imune à voracidade de uma corporação
que parece não recuar perante nada, nem sequer perante os limites do Estado de
direito.
Os cidadãos portugueses querem que os
suspeitos sejam investigados, acusados e julgados, se for o caso. Acreditam no
efeito dissuasor da lei e na forma como a acção penal garante a justiça e a
ordem social. Inquieta-os, certamente, que o compadrio partidário corroa a
democracia ao substituir o mérito, a lisura e a transparência pelo clientelismo.
Mas deverá inquietá-los ainda mais que o conluio entre agentes renegados titulares
da acção penal conduza a operações que não respeitem critérios de objectividade
e legalidade, no fundo à corrosão do conceito de justiça e da própria separação
de poderes. No Parlamento, Amadeu Guerra admitiu a falta de “capacidade de
resposta” do MP. A resposta cada vez mais urgente é aquela que garanta que o
Ministério Público renuncia à aproximação perigosa ao território dos
fora-da-lei.

Comentários
Enviar um comentário