MODERATO CANTABILE
Está na moda que os tenores do espaço público
com ambição de poder ou de influência se reclamem do espaço da moderação. E que
insistam na estigmatização daquilo que chamam de ideologia, mesmo quando, sob a
capa da neutralidade tecnocrática, deixam ver as costuras das suas próprias
convicções ideológicas. Averiguar o grau de pureza das suas proclamações, ora
prenhes da veemência da exposição de um país que se arrasta na falta de ambição
e na mediocridade, ora veículo da denúncia da indisponibilidade crónica da
fauna política para a construção de consensos salvadores, é uma tarefa só ao
alcance da necropsia política. A proliferação do desejo de moderação contrasta
vivamente com a proeminência mediática do radical Ventura, suscitando questões
de quem alimenta quem, a que estratégia recorrer (ignorar, optando por uma
marcação à zona ou fazer uma marcação tema a tema, declaração a declaração) e
como recuperar o eleitorado transviado atraído pelo radicalismo que se esgota
no protesto.
Ensaiam-se pactos, suspira-se por acordos de
regime, anseia-se por “reformas”, de tal maneira que praticamente já não se
fazem alterações pontuais ou conjunturais às leis, visto que, no linguajar
oficial do Governo tudo é “reforma”, da descida da taxa do IRC ao balcão único
do empresário. Tudo é eminentemente estrutural. O pressuposto básico é o de que
só os moderados poderão alcançar a cooperação estratégica, a síntese de
virtudes, que conduzirá Portugal ao cume do progresso económico e do bem-estar
social. Mas, questão fulcral, o que é um moderado e por que motivo todos os
outros, mesmo que se refugiem na etimologia da palavra, são radicais
insensatos? Vejamos o caso de Pedro Passos Coelho, que, com Sérgio Sousa Pinto,
lidera um “estudo estratégico” para avaliar a reforma (what else…) do sistema
político em Portugal. Este pináculo da moderação, ainda há dois meses
considerava “desejável” um acordo de legislatura AD/IL/Chega, para agora ter
uma epifania e considerar “absurda e irrealista” a proposta do partido radical
populista de baixar a idade de reforma. Moral da história: convém que um
“moderado” se abstenha de apadrinhar conluios com radicais (hipótese 1), ou a
triagem que os moderados fazem dos seus parceiros preferenciais tem de ser
apurada (hipótese 2). E que moderação habita no Governo, que não perde uma
oportunidade para se apropriar ou cooptar as bandeiras do Chega?
De Belém também se acena com pactos e
entendimentos. Usa-se uma espécie de pressão benévola. Como aconteceu com o
“Trabalho XXI”, título desconexo da “reforma” laboral, cujo conteúdo se
encontra divorciado do futuro, e cuja premissa evocada pela ministra do
Trabalho de que a legislação laboral se encontra inclinada a favor dos
trabalhadores inquinou o debate. Um assessor do Presidente, Luís
Aguiar-Conraria, na qualidade de cronista do Expresso, não se inibiu de
escrever que “como está a ser feita, é muito duvidoso que a reforma laboral
traga grandes benefícios ao país”. Já no caso da saúde, Seguro escolheu como
Joker o ex-ministro Adalberto Campos Fernandes, que com a subtileza de um
buldózer logo tratou de provocar os socialistas ao mesmo tempo que correu a
encontrar-se discretamente com a ministra Ana Paula Martins, que por sua vez se
apressou a publicitar o encontro.
Bem depressa se concluirá que a coligação dos
moderados é um híbrido inorgânico com alcance limitado, assente em intenções
dúbias, condicionado pelas conveniências políticas e, sobretudo, pela crença
ingénua de que um middle ground, despido de “ideologia”, é a casa comum
dos patriotas, e de que é possível rasurar as diferenças e os interesses
conflituantes com um passe de mágica. Bem depressa se perceberá que, no fundo,
aquilo que apelidam de radicalismo, muitas vezes é apenas a afirmação de
interesses legítimos e o resultado da defesa firme de uma política de Estado.
Os instrumentos a que os cultores da moderação recorrem não substituem uma
política nem possuem o monopólio da gestação da virtude. No limite, o radical é
sempre o outro.
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