A THATCHER DA LAPA
Com a sua aura de “Thatcher da Lapa”, a
ministra do Trabalho, Solidariedade (nas horas vagas) e Segurança Social
declarou enfaticamente que é urgente insistir na reforma laboral. Para combater
“um sistema muito rígido”, assente num “sindicalismo muito tradicional”. Não
temos a certeza se quer “quebrar a espinha” aos sindicatos, que ela caracteriza
como “pouco representativos”, mas sabemos, porque ela o disse, que considera
que a legislação laboral está desequilibrada em favor do trabalhador. Com um
estilo negocial impressivamente descrito por Bagão Félix como “à bruta”, a
proposta supostamente desenhada para impulsionar a economia encontrou em Silva
Peneda um descrente, por não ver nela “nada que esteja relacionado com o
aumento da produtividade nem com a competitividade”, e começou por dar brado na
comunicação social por causa das mães que alegadamente utilizavam a dispensa
para amamentação de forma fraudulenta. Nada como um governo de direita
fervorosamente amigo da “família tradicional” e hostil às novas estruturas
familiares para introduzir entraves ao vínculo materno e disrupção nas relações
familiares, tudo devido ao imperativo de flexibilizar a prestação do trabalho.
O plano do Governo agora, consta, é fazer aprovar medidas avulsas. Está em
preparação a “reforma estrutural” a conta-gotas.
Seguindo o mesmo padrão (de apresentar uma
proposta legislativa como uma reforma essencial, mas procurando convocar apoio
para ela a partir da indignação perante uma alegada fraude), a versão da AD da
Prestação Social Única começou por agitar o espantalho dos 159 milhões de euros
em prestações pagas indevidamente. Seguindo um outro padrão imediatamente
reconhecível, o da pouca clareza (senão mesmo falsidade) das afirmações, logo
se percebeu que cerca de 90% do montante já tinha sido recuperado e a quase totalidade
da verba em causa não resultava de qualquer artifício doloso. Em termos de
táctica política, o Governo ao mesmo tempo que evocava a paternidade socialista
da PSU, ignorava o estudo da OCDE que notava que os apoios sociais em Portugal
são dos que têm “um dos menores impactos na pobreza” dentre os países da UE e
carregava na tecla da fraude e da subsidiodependência para agradar ao Chega,
nas palavras da própria ministra “o parceiro preferencial”. As circunstâncias
conduziram a um recuo em toda a linha, com a aprovação da PSU a ser negociada
com o partido “radical” de José Luís Carneiro. A ministra diz agora que a
questão do trabalho social “nunca foi algo draconiano, nem imposto”. Mas é bem
possível que simpatize com a ideia thatcheriana da pobreza como “defeito de
personalidade”. E que se reveja nas palavras do economista Robert Skidelsky a
propósito da ex-primeira-ministra britânica: “O apoio aos pobres que o mereciam
era, para ela, tão importante como a parte de um orçamento familiar destinada à
caridade.”

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