O PLURAL DE POBRE É ESTA GENTE
Antes da publicação do Decreto-Lei
nº127/2025, uma entidade patronal que não comunicasse a admissão de um
trabalhador à Segurança Social no prazo legalmente previsto, tinha de pagar
contribuições correspondentes a doze meses. Com a alteração legislativa, passou
a presumir-se que “o trabalhador iniciou a prestação de trabalho ao serviço da
entidade empregadora faltosa no primeiro dia do terceiro mês anterior ao da
verificação do incumprimento”. Ao contrário do que à primeira vista possa
parecer, a intenção declarada do Governo não foi aliviar a tesouraria das
empresas relapsas, mas sim “combater a construção artificial de carreiras
contributivas para acesso abusivo a prestações como o subsídio de desemprego,
doença ou parentalidade”. Não se percebe em que dados se baseou o Governo
para adiantar esta justificação, mas, aparentemente, trabalhadores com defeitos
de carácter corrompem empregadores empáticos para defraudar o Estado social. A
compreensão governamental é de tal ordem que se propõe agora, via “Trabalho
XXI”, transformar a “pena de prisão até três anos ou multa até 360 dias” a que
estariam sujeitas “as entidades empregadoras que não comuniquem à segurança
social a admissão de trabalhadores (…) no prazo de seis meses subsequentes ao
termo do prazo legalmente previsto” numa “pena de multa até 80 dias”.
Pior do que um colaborador sem ética de
trabalho, só um pobre viciado em subsídios. Já para não falar nos que acumulam
as duas condições. É por esta razão que na “Exposição de Motivos” da Proposta
de Lei nº85/XVII/1ª, que visa a “implementação [what else?] da PSU”, se
garante que “são reforçados os mecanismos de acompanhamento e
fiscalização, assegurando maior rigor na atribuição da prestação, melhor
prevenção de situações de abuso e um aumento da confiança no sistema”. A que
acresce a disponibilização por parte da “instituição gestora” da Prestação Social
Única de “um canal de denúncias destinado à comunicação de situações de irregularidade,
abuso ou fraude relacionadas com a PSU”. A “confidencialidade da identidade do
denunciante” está, obviamente, “assegurada”.
Mas o que justifica este
anúncio de vigilância apertada? O uso adequado e rigoroso dos recursos
públicos? Ou estabelecer pontes programáticas com a direita radical? Será
credível que o nível de irregularidade percepcionado (instrumento de “medida”
preferido pelo Governo) em prestações como o RSI, por exemplo, seja superior ou
até comparável com as fraudes na obtenção de fundos europeus ou do IAPMEI? Ou
será que, para citar Susana Peralta no Público, “o objectivo é criar um
sistema de bufos e ameaças nos bairros degradados”, porque, “nas cabecinhas do
Governo (...), o pobre é aquele que precisa de ser sujeito a trabalho grátis
(escravo) para garantir que só se habilita à PSU se realmente não tiver
alternativa”.
À custa da amálgama, da
visão de conjunto que ignora as circunstâncias particulares, cresce o
estereótipo abusivo. Reparem nestas afirmações: “(...) imagem que encontro em
pequenas aldeias do interior do país: gente em idade activa e outros,
reformados ou não, mas ainda capazes de trabalhar, todos recebedores de
subsídios públicos de vária ordem e todos sentados à conversa no café, de vez
em quando levantando-se para apostar numa raspadinha da papelaria local”. Se
pensa que o autor destas linhas foi André Ventura, desengane-se. Miguel Sousa
Tavares, no Expresso, poderia perorar sobre a desertificação, a falta de
perspectivas do interior, a desmotivação das suas populações ou o desbaratar
dos fundos europeus. Escolheu desdenhar do “exército de acomodados ou inúteis”.
Tempos houve em que
solidariedade era uma palavra cara (querida, estimada); transformou-se,
entretanto, numa palavra cara (dispendiosa, acima do valor real). O Estado
social está em recessão e ser pobre é um defeito de carácter. O sucesso é um
atestado de proficiência profissional, social e humana. O canal de denúncia é o
habitat natural do whistleblower formatado para fazer equivaler pobreza
a preguiça. Estamos em plena crónica de Lobo Antunes: “o plural de pobre não era
pobres. O plural de pobre era esta gente”. Era? Não. É.
Imagem: Dorothea Lange (colorida) via Wikimedia Commons

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