O PSD DEVIA TIRAR A REFERÊNCIA À DIGNIDADE DA PESSOA DO PREÂMBULO DO SEU PROGRAMA?
“Um princípio personalista”. “Um juízo
realista”. “Uma política popular e democrática: a social-democracia
portuguesa”. Estes são os três eixos do programa do Partido Social-Democrata
(versão 2012), em cujo preâmbulo se pode ler que “o PSD parte da dignidade da
pessoa como fim último da política, bem como fonte e justificação do exercício
do poder e das suas instituições”. A preceder esta afirmação, que sublinha “um
princípio humanista de actuação política”, faz-se constar que valores como “a
liberdade, a igualdade e a solidariedade” acabam por ter uma tradução “em
princípios efectivos de acção política, sem os quais tal acção se reduziria a
um mero pragmatismo errático e inconsequente”. O que a orientação táctica do
governo Montenegro suscita no observador mais ou menos atento, com a patente predilecção
acentuada pela canibalização dos temas caros à direita radical, é a questão de
ponderar se o PSD não deveria retirar do preâmbulo do seu programa a referência
à “dignidade da pessoa como fim último da política”.
Onde está salvaguardada a dignidade da pessoa
humana quando como contrapartida de uma prestação social se impõe a
obrigatoriedade de trabalho social, precário, de duvidoso efeito de inserção social
e laboral, e susceptível de, nas palavras de Renato do Carmo, “gerar formas de
controlo social intoleráveis”, ao mesmo tempo que se cria um canal de denúncias
e se acena com pagamentos indevidos de 159 milhões de euros, como se o
essencial do articulado legal fosse combater os malandros dos pobres e não
minimizar a pobreza?
Onde está salvaguardada a dignidade da pessoa
humana quando se propõem alterações à lei laboral que precarizam a vida do
trabalhador, limitam os seus direitos e desregulam a sua vida familiar, ainda
para mais sem estudos que suportem a ligação entre flexibilidade laboral e
aumento de produtividade, e sem que se abordem de forma consistente as grandes
questões do nosso tempo, nomeadamente o impacto da digitalização e da
inteligência artificial?
Onde está salvaguardada a dignidade da pessoa
humana quando se enquadra a regulação dos fluxos migratórios sobretudo como uma
questão de política criminal, alimentando discursos de ódio, propagando
falsidades e desprezando mão-de-obra válida, que alimenta o crescimento
económico e a sustentabilidade da Segurança Social, para além de se promover
alterações à lei da nacionalidade claramente reféns de “marcas ideológicas do
momento”?
O título desta publicação é claramente
provocatório, mas a prática governativa, porventura inspirada por um subjectivo
“juízo realista”, sugere que não só “a dignidade da pessoa” está a ser
torpedeada, como também a própria social-democracia está nos cuidados
intensivos. É o resultado de uma política populista e democrática:
“social-democracia” à la Montenegro. Não se deduza é que se trata de um
“pragmatismo errático e inconsequente”. O Luís fez uma escolha deliberada e quer
que o deixem trabalhar com o André.

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