TÁCTICA, CLARIFICAÇÃO E CAPITAL POLÍTICO

 


Os “sociais-democratas”, noticiou o Público, terão sido “apanhados de surpresa à última hora” pelo voto contra do Chega ao pacote laboral. Não sendo a ingenuidade um atributo do primeiro-ministro, só uma auto-estima insuflada e uma confiança infinda na sua destreza táctica terá permitido que Montenegro desvalorizasse a falta de fiabilidade da direita radical, a inconsistência das suas “ideias” e o carácter sempre transitório das suas proclamações e exigências. Entre a vontade de reivindicar a sua fatia de influência na governação e o risco de se associar a uma lei profundamente impopular, o populista contumaz escolheu o golpe de teatro e rasteirar o mestre da táctica. Na véspera, Hugo Soares (o rottweiler de Montenegro) profetizara triunfalmente: “Por muito que vos custe, amanhã esta proposta vai ser aprovada.” Não foi. São os custos do contexto parlamentar e das escolhas políticas do montenegrismo.


Perante a evidência da existência de um aliado preferencial (que a retórica tosca do primeiro-ministro e o spin em looping da central de propaganda não conseguem desmentir de forma credível), e que causa inquietação dentro do próprio PSD, uma suspeita legítima se materializa: estará Montenegro a sucumbir ao oportunismo táctico, usando uma linguagem que namora o radicalismo, apenas para congregar o apoio parlamentar do Chega e repelir o fantasma Passos Coelho ou, por outro lado, estará a exprimir convicções, certezas íntimas, arrastando o PSD para a direita e enterrando a social-democracia? O que é certo é que este movimento tectónico que torna porosa a fronteira entre os defensores do Estado de direito e os próceres do populismo polarizador provoca um efeito de clarificação. Se qualquer dúvida persistisse, está agora desfeita: o mantra caro a certos quadrantes de que PS e PSD são equivalentes é uma mistificação.


Paulatinamente, consciente dos danos do desgaste do exercício do poder e das dificuldades de, na oposição, fazer o reset do projecto político-partidário, refreando indignações e ignorando desconsiderações, José Luís Carneiro tem vindo a acumular capital político. Disponibilizou-se para consensualizar propostas com o Governo em áreas como a Saúde, a Habitação, a Defesa e a Justiça, obtendo como “resposta” um agradecimento do PSD pelo “contributo democrático”. Agora, dizem, é mais “radical” do que Pedro Nuno Santos, numa escala de “radicalismo” onde, aparentemente, André Ventura não tem lugar. Está na hora de José Luís Carneiro usar o seu capital político. O threesome que Montenegro reclama privilegiar no jogo parlamentar gera dinâmicas perversas para as políticas públicas, para a democracia e para os eleitores. A AD escolheu o parceiro preferencial. Que lide com as infidelidades e com os sobressaltos da relação. Enquanto Montenegro cooptar o estilo e as propostas cheganas e governar em modo de minoria absoluta, a posição do PS só pode ser de oposição firme. Que outra posição poderá ter perante a “estratégia política manhosa” de Montenegro?


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