ESTE MUNDO É PARA OS BELOS

 


Discriminação estética. Preconceito baseado na aparência. Estas são definições possíveis para o lookism. Leio o título do artigo no site da New Yorker - Devemos fazer mais para combater o lookism? - com a sensação de estar prestes a navegar num território pantanoso algures entre a auto-ajuda e a futilidade. E, no entanto, não é possível minimizar a dor, o sofrimento psíquico, o potencial devastador de um rótulo (a fealdade) que corresponde a uma desconformidade face a um padrão de beleza triunfal. Os espoliados  da beleza ficam expostos ao desdém dos escolhidos pelos deuses, à crueldade dos comentários maldosos, ao confronto com a repulsa alheia. Mas não só. A sua condição, por assim dizer, constitui uma desvantagem competitiva, visto que, conforme Joshua Rothman lembra no artigo, “as pessoas bonitas têm mais facilidade em ganhar dinheiro, encontrar parceiros e até ganhar causas em tribunal, enquanto que as pessoas pouco atraentes são julgadas com mais severidade, tratadas de forma mais cruel e vistas como tendo um desempenho inferior”.


Rothman frisa que o lookism não gera o mesmo tipo de consciencialização que as discriminações de género ou racial, dado que há “um desconforto associado com o ser identificado como feio”, um dos motivos pelos quais não existe uma “Associação Nacional das Pessoas Não Atraentes”. À falta de poder reivindicativo por retraimento social soma-se a desigualdade económica, pois, como nota Rothman, “vivemos numa era de lookism tecnologicamente acelerado. Na nossa realidade de ficção científica, aqueles com meios podem recorrer aos GLP-1[agonistas dos receptores do GLP-1] para se tornarem ultra-magros; recorrer à cirurgia cosmética para reverter os sinais de envelhecimento, e redesenhar os rostos e os corpos de forma a que eles reflictam imagens de ‘perfeição’ avaliadas algoritmicamente”.


A perfeição requer “aspas”, ainda para mais quando associada à condição humana, mesmo que esta acelere em direcção ao transumanismo. Há, evidentemente, no padrão que uniformiza uma agressão insuportável à nossa individualidade. E haverá sempre um momento em que as características da beleza clássica - harmonia, proporção, simetria – se tornarão escassas para satisfazer todas as dimensões da nossa existência. Que atirem a primeira pedra aqueles que num momento de maximização do prazer não sucumbiram ao encandeamento perante a súbita irrupção dessa beleza. Mas quantos de nós não se deixaram subjugar por uma particularidade mais ou exótica, vizinha do “desvio estético”: um rosto singular, um nariz com personalidade, um olhar devassador (ou devasso), umas mãos inquietas, o desenho de um tornozelo? Talvez a próxima “revolução” seja a do reconhecimento de que não correspondendo o conceito de beleza a algo absoluto ou imutável, é inaceitável a submissão a uma espécie de ditadura estética. O provérbio popular “quem feio ama, bonito lhe parece”, que expressa a importância da conexão emocional, casa bem com a noção de que a beleza está nos olhos de quem vê. Que melhor defesa contra o totalitarismo estético do que esta irredutível subjectividade?


Fotos: Paul Newman e Grace Kelly (Wikimedia Commons)


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