O CASO DO EMPREITEIRO ATRELADO AO MINISTRO

 


“A ameaça da extrema-direita é muito maior, têm armas, matam, ameaçam, coagem.” “Não existe uma relação entre aumento da criminalidade e aumento da imigração.” “Estamos a assistir a um momento de desinformação, fake news e ameaças híbridas e é isso tudo que leva a fundamentar a percepção de insegurança.” Estas três afirmações de Luís Neves contribuíram para tentar centrar o debate político no território dos factos e não das construções ideológicas ou das estratégias de comunicação política. O dano colateral foi torná-lo persona non grata para a direita radical e para os seus tenores na comunicação social.


A sucessão de notícias acerca do relacionamento do actual ministro da Administração Interna com um empreiteiro de Barcelos está a ser encarado por alguns quadrantes como uma manobra de desqualificação e um ataque cerrado aos procedimentos e ao carácter de Luís Neves, no fundo uma retaliação pela sua firmeza na fidelidade a factos “inconvenientes”. Infelizmente, os dados até agora conhecidos revelam um padrão de comportamento displicente ou contaminado por uma informalidade pouco cautelosa, indiciam decisões inexplicáveis, omissões levianas e declarações em entrevistas a roçar uma ignorância que desafia a credulidade.


Não passou pela cabeça de Luís Neves a existência do risco de suspeita de favorecimento ao contratar para a sua obra particular um empreiteiro com contratos com a PJ que totalizaram mais de dois milhões de euros? E a ser verdade que autorizou a transferência de um atrelado apreendido numa operação de combate ao fabrico de droga para o seu amigo empreiteiro, qual é o racional por detrás desta decisão? E por que razão esse mesmo amigo tinha na sua posse, “armazenados na empresa, bidões com químicos destinados a processar cocaína”, conforme notícia do Público? E se foi a Marinha a exigir a retirada das suas instalações do atrelado com os químicos, por risco de explosão, devemos depreender que a Construbarcelos é especialista em minas e armadilhas?


Se se podem relevar algumas irregularidades, sanadas entretanto ou sanáveis (ausência de licenciamento de obras, omissão da declaração da empresa da mulher), convém não desvalorizar a importância de apresentar comprovativos dos pagamentos efectuados no âmbito das obras particulares. E, já agora, abster-se de afirmar em entrevistas barbaridades como as que sugerem que a emissão de uma factura ou a sua presença no E-fatura comprovam o pagamento das mesmas.


O trabalho de Luís Neves à frente da Polícia Judiciária e do ministério da Administração Interna, e a frontalidade e a firmeza da suas convicções assentes em factos merecem elogio, mas não são um salvo-conduto para a imunidade de escrutínio. Não estando em causa a sua honorabilidade, a prudência e o bom senso ressentem-se e a clareza de procedimentos parece gravemente lesada. Das ”ameaças híbridas” de que é alvo, só pode defender-se com transparência e verdade.

 

 

 



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