O "REFORMISMO" ÀS TRÊS PANCADAS

 


Dado que o primeiro-ministro é um político de verbo escasso, devemos estar atentos quando ele nos dá acesso privilegiado ao seu pensamento. Portanto, quando ele afirma que “quem fica a aguardar grandes reflexões e grandes consensualizações fica para trás”, e ainda que “é mais importante tentar do que adiar, é preciso tentar e eventualmente falhar”, do que se trata é da exposição de um método de governar. Raciocínio rápido, instinto e voluntarismo por oposição a estudo aprofundado, maturação e ponderação intelectual.


Num elenco governativo cujo combustível preferido é a propaganda aditivada, o acto de nomear algo como uma reforma estrutural equivale a criar uma realidade que só o preconceito ideológico poderá contestar. Estabelecido o pedigree reformista, pressurosamente replicado nos painéis de comentários dos canais por cabo e nas páginas de opinião dos periódicos online e offline, avança-se com o pacote legislativo e com a “implementação” das medidas, isto é, das reformas propriamente ditas.


O problema surge quando o instinto e o voluntarismo lidam atabalhoadamente com o imprevisto. Ou quando o apego visceral ao primado da propaganda tolda o raciocínio. Ou ainda quando a “implementação” do reformismo às três pancadas gera “constrangimentos”. Foi o caso do episódio dos motoristas dos ministros a transportarem jerricãs de combustível para alimentar os geradores de um hospital. Foi igualmente o caso da “matemática avançada” do ministro Leitão Amaro na estimativa de crescimento da imigração (uma prova da falsidade do linear). E foi também o caso do QR code mutilado pelo agrafador no âmbito do processo de digitalização de provas de avaliação, que tem deixado o ministro da Educação entre o mutismo, a negação da realidade e a tentativa de transferir responsabilidades para terceiros.


Fernando Alexandre, que não é um académico noviço na política, tem revelado, aliás, uma notória dificuldade em lidar com a crítica e uma certa arrogância, que acaba por descambar em admissões filosóficas (“agora sabemos que não sabíamos, mas vamos passar a saber”). O que em 2025 motivou esta frase de inspiração socrática (refiro-me ao filósofo e não ao ex-primeiro-ministro) foi o desconhecimento do número de alunos sem aulas durante o ano lectivo. Passado um ano, continuamos sem saber a resposta. Talvez esteja na altura de incentivarmos o senhor ministro. Vá lá, não adie. Diga um número. “É mais importante tentar do que adiar, é preciso tentar e eventualmente falhar.” 


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