AVE, MADONNA!

 


Fazendo fé em T. S. Eliott, “Abril é o mais cruel dos meses, germina / Lilases da terra morta, mistura / Memória e desejo”. Foi nesse mês propício ao agitar das raízes da criatividade que em 1982 Madonna fez a sua estreia discográfica com o tema Everybody. O seu mais recente disco inclui uma canção chamada Everything. De todos a tudo, eis a medida da ambição de uma carreira a caminho do meio século, infatigável na luta pela relevância artística e pela perenidade do estatuto de ícone.


Toda ela, a carreira, se desenrolou debaixo de uma suspeita e de uma acusação: a avidez desmedida pela fama e a sucessiva alteração da sua imagem encobririam a superficialidade do seu projecto artístico e atenuariam as suas débeis, diziam, capacidades vocais e interpretativas. Seria, decretaram, a protagonista de um sucesso efémero, um cometa cujo brilho em breve se dissolveria na bruma do oblívio. Procuraram reduzi-la a uma produtora de pastiches dos símbolos sexuais da idade dourada de Hollywood, esquecendo deliberadamente que o seu trabalho de recriação esticava os limites do visível, do apresentável, do representável, numa demolição notável de um puritanismo casado com a hipocrisia. Pouco importou, aliás, que em 1989, questionada por Becky Johnston para a Interview, ela tivesse explicado de forma cristalina: “Todas as mudanças na minha tão falada imagem são apenas diferentes facetas de mim própria. Trata-se, tão-só, daquilo que se quer focar e da profundidade que se deseja. É uma questão de especificidade.”


Mais notória ainda é a aura de escândalo que a rodeou e rodeia, a que nos últimos anos se adicionou o etarismo. Se considerarmos que o escândalo como a vergonha são construções sociais impostas pelos outros como forma de controlo, percebe-se que uma mulher com ideias bem consolidadas acerca dos direitos das mulheres, defensora das minorias e com uma atitude aberta em relação ao sexo facilmente se tornaria um alvo para uma sociedade marcadamente conservadora. Ainda para mais quando, desafiadora, ela jamais prescindiu da provocação, ora como blague, ora como demonstração de uma evidência usando o método comparativo. “Não é verdade que tendo tido uma educação católica, a sua condição como mulher só pode ser uma de duas: ou virgem ou puta?”, perguntou-lhe Becky Johnston. “Sim, tenho consciência disso, mas não entendo porque é que não posso ser ambas.”, replicou Madonna. Três anos depois, em pleno vendaval mediático causado pela edição do livro Sex, a revista brasileira Veja perguntou-lhe se a obscenidade existia. A resposta foi paradigmática: “Existe e está diante das nossas caras. É o racismo, a discriminação sexual, o ódio, a ignorância, a miséria. Há coisa mais obscena que a guerra?” Dois anos antes, em Dezembro de 1990, escrevendo no Expresso a propósito do vídeo de Justify My Love, João Lopes lograra uma síntese feliz da obra da performer: “Madonna limita-se a prosseguir o seu trabalho sobre o corpo. O sexo e a sua representação. No seu sistema, corpo e alma renascem sempre em novas imagens. Ela continua a ser uma incrível máquina de fabricar ficções.”


Norman Mailer, que a entrevistou para a Esquire (Setembro de 1994), chamando-lhe a “Primeira Dama do Sexo na América”, escreveu que “se Madonna revela um vício predominante, é o de que defende sempre uma causa”. E confessou que se não soubesse nada sobre ela, diria apenas “Bom, é uma senhora [lady]”. Instado pela própria a definir “senhora”, Mailer foi epigramático: “uma senhora é uma mulher que faz tudo o que as outras fazem, mas com um pouco mais de estilo”.


A Madonna de 2026, a Madonna de Confessions II (em simultâneo mais um tomo que joga com a temática religiosa aplicada ao profano e um regresso ao universo da música de dança) continua a revisitar o território dos ícones. Só que desta vez não se trata de Marilyn, Marlene Dietrich ou Rita Hayworth. Do que se trata é de auto-referenciação, da revisitação de uma carreira, da administração de um legado. Sempre entre a reciclagem de sons do passado, o ímpeto de futuro, a exposição de motivos e o desafio. “I need a blank canvas / And I’ll paint my desire / Can you fit my frame?”, canta ela em School. Confessions II  foi aclamado pela crítica e, na era digital com o seu conceito difuso de sucesso, parece estar a ter um desempenho assinalável entre vendas físicas e streaming. E talvez este último aspecto já não seja particularmente relevante. Como ela nos adverte em Bring Your Love, “Don’t try to distract me with numbers / I did it all for love”. E não lhe falem em terminar a carreira ou descansar. Como ela disse à Rolling Stone em 2000: “Descansarei quando morrer. Tenho fome e a vida é curta”. Compreende-se. Uma pioneira, uma rebelde com causas com fome de viver, uma nossa senhora da reinvenção nunca se retira. E um ícone nunca morre, está destinado aos altares da memória. No entretanto, no espaço da imaculada ligação terrena entre fãs e artista, é tempo de mais um Happy Birthday, Madonna! E, porventura, acrescentar um sacrílego “bendita sejas vós entre as artistas, e bendito seja o fruto da vossa criatividade”.


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