CONFISSÕES NO SOFÁ DA SALA

 


“People think that dance music is superficial

But they’ve got it all wrong

The dance floor is not just a place

It’s a threshold a ritualistic space

Where movement replaces language”

          Madonna “One Step Away”

 

Eu lembro-me apesar de já terem passado mais de três décadas. Lembro-me da mistura caótica de liberdade, juventude e celebração e da levemente incómoda proximidade do despropósito que me deixava sempre aquém da euforia. Haveria sempre um momento algures na noite em que entre os fumos perfumados, as luzes irrequietas e os corpos abandonados ao ritmo, eu me interrogava o que estava a fazer ali. Não era desamparo, muito menos desespero, era apenas a chegada de uma sensação de vazio, de uma indiferença narcótica.


O ritual começava com a ronda dos bares, o que para mim não passava de enfadonhos preliminares, estações para a gratificação adiada da abertura da pista da discoteca. Não que me desagradassem completamente. Num entretive-me durante algum tempo a experimentar cocktails (Bloody Mary, Manhattan, Margarita entre os favoritos), enquanto no andar de baixo se recitava poesia, local que nunca frequentei, pois é sabido que em certas circunstâncias a poesia pode ser dilacerante. Já noutro bar, recordo-me de termos ido empestá-lo com o fumo e o odor de uns charutos que alguém trouxera como recuerdo de uma viagem a Cuba. Do nosso ponto de vista era uma afirmação de estilo, visto que nenhum de nós era apreciador da coisa. Na altura eu fumava esporadicamente, não por vício, mas por uma conjugação de suporte emocional e prazer estético. Um coração vazio disfarçava-se, umas mãos desocupadas ou ansiosas beneficiavam com um cilindro de papel em combustão lenta, parado na encruzilhada dos dedos ou em trânsito para lábios entreabertos. E a caixa dos Dunhill era uma combinação prodigiosa de vermelho e dourado, donde estavam ausentes as advertências de morte.


Achei sempre que o porteiro da noite me olhava com um certo desdém (tirando aquela vez em que eu me apresentei à porta com um blazer de linho preto), e que só me franqueava a entrada porque eu estava com clientes habituais. Transposta a porta, passado o bengaleiro, havia um bar, enquadrado por uma estátua de estilo clássico, que regra geral ignorávamos, e descíamos a escadaria em direcção aos subterrâneos das sensações. O que sempre me agradou foi a heterogeneidade da clientela. Criaturas com pose e dress code que gritava sofisticação, dependentes da roupa casual e da t-shirt branca, o casal composto pelo senhor de fato com ar austero e pela senhora com penteado à Sharon Stone (de quem se sussurrava que procuravam um parceiro/parceira para as intermitências na cama), mulheres fatais mal saídas da adolescência, jovens homens fatais com cabelo esculpido a gel e estilo modelado pela MTV, candidatos a estilista, travestis, profissionais do sexo, aquilo que se chamaria agora a comunidade LGBT, que ocupava um bar numa região demarcada, todos movendo-se num espaço hedonista comum.


Lembro-me das músicas que convocavam uma força centrípeta, arrastando para a pista as criaturas da noite às primeiras batidas ou aos primeiros acordes. A escala de piano a anunciar o “I Will Survive”. O ritmo da remistura do Todd Terry do “Missing” dos Everything But The Girl. A efusiva cama rítmica para a performance vocal da Caron Wheeler no “Back to Life” dos Soul II Soul. O saxofone em loop da versão acapella do “Gonna Catch You” da Lonnie Gordon. E, claro, o filosófico início de ”This is Your Life” das Banderas, que reza assim: “Where is the purpose in your life? / Where is the truth? / Do you remember your hopes? Your dreams? / They are no longer your own.”  E que dizer das excentricidades do DJ? Mozart em versão techno (“Eine kleine nachtmusik”, julgo), e o momento apoteótico em que a caixa de ritmos foi dispensada e a voz de Pavarotti iluminou a noite interior com o “O Sole Mio”.


Às 4 de manhã, com a intervenção da autoridade, a dança tinha uma síncope. Música interrompida. A lei é dura. Mas como resistir à lei do desejo e aos imperativos do comércio? Havia que sensibilizar o poder coercivo, apelar à flexibilização, acenar com a recompensa. Poucos minutos depois, gloriosamente, eis que ressuscitava o ritmo, recobravam os sentidos as luzes estroboscópicas e as esferas rotativas, e os zombies benévolos arrastavam-se de novo para a pista. Corpos em movimento, olhares cúmplices, esboços de liberdade.


Duas horas depois, com o ignorado amanhecer lá fora a ameaçar quebrar o feitiço, eis que a noite chegava ao fim, com a senha habitual – “Say Hello, Wave Goodbye” dos Soft Cell. Transpúnhamos a porta de saída e enfrentávamos a claridade com o ar atordoado dos vampiros. Exalávamos, depois de horas de aeróbica dos sentidos, um aroma a tabaco, perfume e suor adocicado. Os capítulos seguintes seguiriam o mesmo guião, aqui e ali com improvisações, escapadelas aos desígnios do argumentista. Que é o que acontece a quem frequenta “um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem”. O alfabeto do corpo apreende-se consoante se vai amadurecendo, mas nunca se domina verdadeiramente. E não há ritual que apazigue a rebeldia do desejo.


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