DIRTY LUÍS DO LADO DO BEM

 


Temos um ministro da Administração Interna que personifica o arquétipo do anti-herói, para quem os procedimentos (a burocracia, as regras processuais) são um estorvo. Um licenciado em direito que alega o desconhecimento da lei, um ex-operacional que prendeu “milhares de bandidos”, alguém que ficou “sempre do lado do bem”, mas que nunca foi “um homem de expedientes, de papéis”. Daí que a entrega ad hoc de bidões que continham químicos para fabricar cocaína a um depositário prestável seja qualificada como um “acto de extraordinária gestão” (tal como a detenção de “milhares de bandidos” terá constituído um acto de extraordinária bravura). Como sucede com todo o anti-herói solitário, por condição e por necessidade, todos lhe falharam: o vendedor que não o informou que a propriedade  que iria adquirir estava em “área condicionada”, os “profissionais competentes da estrutura” que podem não ter assegurado “os procedimentos e a documentação” relacionados com a galera, o Tribunal Constitucional  que “nunca” o notificou da falta de qualquer declaração e até o amigo empreiteiro que, contra a sua vontade, fez o upgrade de um tanque para uma “piscina média familiar”.


Luís Neves apresentou-se na conferência de imprensa com uma espécie de Harry Callahan do serviço público. Popularizado como Dirty Harry, e protagonizado por Clint Eastwood, o inspector da polícia de S. Francisco foi  definido numa crítica do Guardian como “o anti-herói seminal dos anos 70, um homem que quebrará a lei para a fazer cumprir”. Neves, com o seu desdém pelos conflitos de interesse e o seu perfil de homem de acção com queda para a informalidade, empunha o seu currículo como um salvo-conduto. É pena que o homem das palavras certas no momento certo e contra a corrente delapide o seu capital político com a desvalorização e a subversão das regras de um Estado de direito. Caso replicasse no cargo actual os métodos que pelos vistos utilizou enquanto director da PJ,  poder-se-ia dizer, por ironia, que ele é que era o verdadeiro ministro da reforma do Estado. Com a salvaguarda de que, nesse caso, corríamos o risco de que quando abandonasse o cargo já pouco restasse do Estado. 


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