MONTENEGRO NÃO CUMPRE OS REQUISITOS DE SEGURO PARA PRESERVAR A DEMOCRACIA
No seu discurso na assembleia parlamentar do
Conselho da Europa, o Presidente da República referiu-se à ameaça do
“crescimento de movimentos extremistas”, com o consequente fomentar da
“desconfiança nas instituições” e a ameaça de retrocesso “em direitos que
julgávamos consolidados”. Numa fase posterior, em resposta a questões, delineou
quatro condições que poderão permitir preservar as democracias do assalto dos
extremismos iliberais. São elas, de acordo com o jornal Expresso,
“atrair os ‘moderados’, “não prometer o que não se pode cumprir”, “ter uma
‘ética à prova de bala’ no exercício de funções” e “pôr o foco na resolução dos
problemas em vez de concentrar energias no combate aos adversários”. Objectivamente,
a prática governativa do primeiro-ministro não permite supor que ele preencha
estes requisitos. Que Seguro os tenha enunciado no pós-discurso, numa fase de
perguntas e respostas, é um suplemento de ironia, sabendo nós que o
primeiro-ministro se especializou nas intervenções sem direito a perguntas.
Montenegro nunca se preocupou em atrair os
moderados, preferindo reproduzir o discurso mais radical sobre imigração,
segurança ou “subsidiodependência”. E na segunda volta das presidenciais
revelou-se incapaz de escolher entre a moderação e o extremismo. Quanto a
promessas arrojadas a pedir a suspensão da descrença, que dizer do Plano de
Emergência para a saúde, do médico de família para todos e da redução drástica
das listas de espera? Ou das estimativas irrealistas de crescimento económico?
Não só não cumpre o que promete como ainda se vangloria de feitos inalcançados,
como foi o caso da afirmação de que “batemos o recorde de captação e atracção
de investimento directo estrangeiro em 2025”, quando ele foi o mais baixo desde
2020.
Quanto à ética, como poderá invocá-la de
forma credível no exercício das funções, quem, citando Susana Peralta no Público,
“foi para o Governo mantendo uma empresa familiar de prestação de serviços a
empresas (…), [usou] os terrenos transmontanos da mãe (…) [para] esconder o
negócio mais importante da Spinumviva (…) [e] as eleições legislativas para
tentar limpar um currículo ético deplorável”? Já para não falar de todos os
esforços para evitar a transparência e o escrutínio.
O primeiro-ministro garante estar “focado”,
empenhado em “não defraudar as expectativas que foram criadas”, mas isto não
quer dizer que não se tenha dedicado ao “combate aos adversários”. Na verdade,
a grande jogada do mestre da táctica é emular Cavaco, governar de forma a levar
a oposição a derrubar o Governo, usando a vitimização para alcançar a mirífica
maioria absoluta. O take 1 não correu à medida da ambição, mas ele não é pessoa
para desistir. Daí o desprezo, recentemente mitigado, pelo PS de José Luís
Carneiro, e também pelo “jornalismo ofegante” hipotecado à “censura moderna”. O
seu fito é a desintermediação, e criar o mito do primeiro-ministro genial, de
palavra escassa e obra grandiosa, a conduzir os destinos do país, trabalhando
arduamente em “contexto de invisibilidade”.
Que Montenegro não cumpra os requisitos de
Seguro para a preservação da democracia não é motivo de alarme para os
defensores da estabilidade e do regular funcionamento das instituições
democráticas. O Presidente já disse que não será por causa dele que a
legislatura não será cumprida. E Montenegro, capitão do Governo, com a sua
“mentalidade de Cristiano Ronaldo” de “jogar sempre para ganhar”, não é pessoa
para abandonar a equipa de 16 ministros que lidera. A menos, claro, que a força
das circunstâncias o obrigue a ser o “pai da austeridade”.

Comentários
Enviar um comentário