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A mostrar mensagens de setembro, 2026

PALMA DE OURO

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  “Canto aquilo que sinto e penso, sem mandar mensagens. No fundo, sou um cronista”. É possível que esta premissa que prescinde do artifício que associamos a um “artista”, que aproxima a sua obra da revelação de uma verdade íntima, seja responsável pela identificação de tantos de nós com os seus estados de alma, com os seus retratos à la minuta de um quotidiano resgatado à banalidade por lampejos de beleza ou por inesperados confrontos com o que nos desafia. Do particular para o universal sem se diluir na amálgama do comum. Os grandes artistas, como Jorge Palma, têm o condão de nos municiarem com o vocabulário que descodifica as nossas emoções, ultrapassando inibições e reabilitando a vulnerabilidade, num movimento que exprime a franqueza que não se sente limitada pelos momentos de fraqueza. Que nunca tenha pretendido ser um modelo de virtudes, aproxima-o ainda mais de todos nós. Que tenha perseguido com sucesso o virtuosismo, esse zénite onde se conjugam o domínio técnico e...

O MONÓLOGO DO ACOSSADO

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  Foi na quinta-feira (não sabemos se inspirado por Cavaco, o da “Quinta-feira e outros dias”) que o primeiro-ministro se disponibilizou para “dar a cara neste momento difícil”. O formato foi o preferido dele: comunicação solene sem direito a perguntas. Falou directamente aos portugueses, de sorriso ausente, com uma pose algo gingante, alternando entre o apoio da perna esquerda e o da perna direita e com o olhar no horizonte, por cima e para além das câmaras, lá onde o eleitor reside. O tom do discurso oscilou entre a autoconfiança no desempenho governativo (“governar é fazer escolhas e estas são as nossas escolhas”; “não troco, não trocamos este rumo por nenhum outro de nenhum estado-membro da União Europeia”) e o exercício da compaixão (“sentimos as vossas angústias”; “nós sentimos o vosso sofrimento, a vossa inquietação”; “o momento é duro”). A síntese do discurso, da mensagem a passar, está reflectida na frase: “Temos de equilibrar s sensibilidade social com a responsabilidade ...

O DUO PAI E FILHA

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O Conjunto Pai e Filhos é um digno representante da música popular e tradicional portuguesa, cuja obra pode ser escutada no Spotify. Já o Duo Pai e Filha é um tandem político-ideológico assente em valores tradicionais e populistas — pátria, família, Deus (quando convém) — com presença significativa em podcasts , ecrãs televisivos e colunas de jornais. O seu papel principal consiste em, para além de espalharem o evangelho dos valores tradicionais, enumerar argumentos que neguem o carácter extremado de determinadas organizações políticas, que são, no entender deles, sempre “soberanistas”, “nativistas”, contra o multiculturalismo, mas nunca, jamais, “uma ameaça existencial à democracia”. O Duo Pai e Filha navega nas nuvens da credibilidade académica, alinhavando um discurso mais ou menos sofisticado a que adiciona uma dose de souplesse . Porém, como bons ideólogos orientados para os resultados práticos, podem deplorar a linguagem, o estilo ou a falta de método das organizações que apoia...

DEUS NOS LIVRE DA REPÚBLICA DAS BANANAS

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  O primeiro-ministro já esteve mais longe de declarar algo do género de poder disparar em pleno Rossio contra alguém que não perderia um voto. “Deus me livre se eu governasse atendendo àquilo que dizem os comentadores. Não mando recados a ninguém, falo com o povo”, afirmou de forma lapidar.  E através desse diálogo, desse contacto directo não conspurcado pela “censura moderna”, Montenegro percebeu que “as pessoas podem não gostar de tudo quanto o Governo faz [um understatement ], mas querem que o Governo trabalhe”. Ou seja, a produtividade pode ser baixa, mas o povo não quer eleições. É isto, e apenas isto, que explica aquilo que o director do Expresso apelida de “descontracção e ar blasé ” do primeiro-ministro. Que faria bem em meditar que em política o fugaz e o transitório reinam. Resvalar da apatia ou do desdém para a sobranceria costuma ser fatal.   Com aquele seu estilo tonitruante, que combina o cacique que serve de vade-mécum simplificado para os correligion...