RECURSOS LIMITADOS (DA SEGURANÇA SOCIAL E DOS PERITOS)
Seria de
prever que o Governo, que se auto-intitula de “reformista” e com grande queda
para as “medidas estruturais”, se atirasse à reforma da Segurança Social depois
de a voluntariosa ministra Palma Ramalho ter criado um grupo de trabalho para o
efeito, mas afinal não. Diz o PM que só com um “compromisso antes das eleições”
e com um “entendimento nacional” é que a coisa se faz. As “pensões são
sagradas”, o reformismo foi engavetado desta vez e ficámos sem saber se
Montenegro, para além de ouvir “muitos disparates” das oposições, também terá
detectado “disparates” no relatório dos peritos.
Alertava
Pedro Adão e Silva no Público de sexta-feira para a necessidade de
estarmos atentos porque o FEFSS “não poder servir para pagar a factura da CGA”.
Na verdade, Jorge Bravo não escondeu este propósito. A começar pela designação
do fundo, que passaria de Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social
para Fundo de Reserva dos Sistemas Públicos de Pensões, sugerindo uma maior
abrangência. Questionado pelo mesmo jornal se o fundo poderia ser usado para
transferir verbas para a CGA (em vez do Orçamento do Estado), Bravo respondeu:
“Qual é a alternativa?”.
O relatório
avança com propostas complementares para a protecção na velhice (planos de
pensões profissionais de adesão automática, programa Grão a Grão, Obrigações do
Tesouro-Reforma, Certificados de Aforro-Reforma, programa Save-As-You-Buy,
hipoteca inversa), sendo duvidoso o alcance delas, sobretudo tendo em conta o
salário médio em Portugal e uma certa (porventura justificada) aversão ao
risco. Conceda-se, no entanto, que não deixa de ser um contributo útil para a
discussão. Pena que os peritos não tenham aplicado a sua expertise
também na arquitectura de uma solução para o défice da CGA que não passasse
pelo recurso ao FEFSS.
Jorge Bravo
“não crê” que o défice exija cortes nas pensões futuras, concede que a reforma
resultaria numa “pensão ligeiramente inferior” num contexto de subdeclaração de
rendimentos, e parece apelar à consciência cívica (ou à
reabilitação/reorientação do risco) quando cita que “no ano passado, cada
adulto em Portugal gastou, em jogos de fortuna e azar”, mais de 2700 euros”. A
eliminação das bonificações para as pensões mais baixas defendida no relatório
contribui também para aquilo que um jornalista do Público considerou ser
uma das “fragilidades do relatório”: “não ter dados que possam sustentar de
forma clara o benefício directo que as pessoas teriam com a reforma proposta”.
Questionado nestes termos, Jorge Bravo foi cândido: “A comissão tinha recursos
bastante limitados.”
O assunto
presta-se a clivagens ideológicas. E à dicotomia reformismo/degradação. E a
discursos apocalípticos. E se é certo que a escolha de Jorge Bravo levantou
dúvidas de conflito de interesses (conceito incompreensível para Montenegro) por
estar ligado a estudos para o sector dos seguros, também não é menos certo que
houve quem ficasse surpreendido com uma certa moderação (não defende o
plafonamento, mantém o financiamento em repartição). A fazer fé no Expresso,
até o Governo terá apreciado o” tom contido” e o facto de o relatório ser
“parco em propostas que possam causar alarme”.
Mesmo assim,
a visão agregada que resultou num défice de 1,94 mil milhões de euros em 2025
levou figuras da direita como Bagão Félix a lamentar o “catastrofismo” e a
considerar que “ilusório” é juntar os dois sistemas. Já Silva Peneda fez
questão, em artigo no Público, de frisar que “uma coisa é avaliar
conjuntamente os encargos futuros do Estado; outra diferente é não tornar
suficientemente perceptível a origem dos desequilíbrios de cada sistema”. A
opção dos peritos, concluiu Peneda, “criou um sobressalto desnecessário e uma
angústia dispensável em milhões de cidadãos e deu azo a que se especule sobre
as reais intenções dos autores do relatório”. E com esta frase, as inquietações
com as “intenções dos autores” deixaram de pertencer ao reino da especulação da
esquerda imobilista e preconceituosa, para se estender ao domínio do bom senso
e da ponderação pós-ideológica.

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