DEUS NOS LIVRE DA REPÚBLICA DAS BANANAS
O primeiro-ministro já esteve mais longe de
declarar algo do género de poder disparar em pleno Rossio contra alguém que não
perderia um voto. “Deus me livre se eu governasse atendendo àquilo que dizem os
comentadores. Não mando recados a ninguém, falo com o povo”, afirmou de forma
lapidar. E através desse diálogo, desse
contacto directo não conspurcado pela “censura moderna”, Montenegro percebeu
que “as pessoas podem não gostar de tudo quanto o Governo faz [um understatement],
mas querem que o Governo trabalhe”. Ou seja, a produtividade pode ser baixa,
mas o povo não quer eleições. É isto, e apenas isto, que explica aquilo que o
director do Expresso apelida de “descontracção e ar blasé” do
primeiro-ministro. Que faria bem em meditar que em política o fugaz e o
transitório reinam. Resvalar da apatia ou do desdém para a sobranceria costuma
ser fatal.
Com aquele seu estilo tonitruante, que
combina o cacique que serve de vade-mécum simplificado para os correligionários
e o chefe de claque fanfarrão, Hugo Soares produziu esta semana duas afirmações
extraordinárias, ambas combinando o humor involuntário com a inconsciência e a
amnésia. A primeira consistiu numa manifestação de “confiança no discernimento
ético do primeiro-ministro”; e a segunda numa censura preventiva a um eventual
Presidente da República que ousasse “mandar recados ao Governo por um amigo”,
transformando Portugal numa “república das bananas”. Se o “discernimento ético”
do primeiro-ministro desde o caso Spinumviva é uma evidência a contrario
(o que revela que a afirmação de Soares é um puro acto de fé destituído de
razoabilidade ou uma risível cortina de fumo), a equiparação dos recados
presidenciais a uma “república das bananas” tem uma desastrosa aplicação
retroactiva. Marcelo, apesar de também falar “com o povo”, tinha muitos
“amigos” nos jornais, desdobrava-se em “recados”, pisou o risco das suas
competências, pressionou até ao limite da decência a demissão de ministros,
ameaçou-os em cerimónias públicas, e fez expedições simbólicos ao multibanco,
ao Santini e a becos de Lisboa com ressonância histórica, irrupções da
prepotência e do kitsch no mandato presidencial.
Não consta que o actual Presidente da República lamente que Hugo Soares não tenha declarado que confiava no “discernimento ético” dele. Para quem defendeu “um país onde a política não se encontra separada da ética, nem a ética separada da política”, e defendeu enfaticamente que “a transparência e a ética são inegociáveis”, convém que o Presidente zele para que, nas audiências em Belém, apenas aos telemóveis seja negado o acesso, confinando-os a um “cacifo de acrílico”. Convém que sobre a mesa estejam a lisura de procedimentos que permite o escrutínio e o respeito pelos princípios éticos no exercício dos altos cargos, sob pena de as boas intenções presidenciais se perderem na amálgama da cooperação institucional. “Não serei oposição, serei exigência”, prometeu António José Seguro. “Não será por mim que a legislatura será interrompida”, assegurou. O Presidente não quer eleições, o primeiro-ministro não quer eleições, a oposição não quer eleições, o “povo” não quer eleições. Toda a gente quer que o Governo “trabalhe”. Há aqui uma sintonia virtual, mas será virtuosa? Seguro também declarou: “A estabilidade política que defendo é um meio para garantir condições de governabilidade, nunca um fim para manter tudo na mesma”. Na última sondagem realizada pelo Cesop – Universidade Católica (Julho/2026), 51% dos inquiridos responderam que o país estava pior do que há um ano e 35% que permanecia igual. 41% consideravam o desempenho do Governo como mau ou muito mau e 11% classificavam-no como bom ou muito bom, enquanto 46% o definiam como razoável. O comportamento sectorial era avaliado como mau ou muito mau pela maioria dos inquiridos nas áreas da saúde (63%), da Habitação (61%) e da educação (54%). Eram estas as percepções dos portugueses.

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