PALMA DE OURO
“Canto
aquilo que sinto e penso, sem mandar mensagens. No fundo, sou um
cronista”. É possível que esta premissa que prescinde do artifício que
associamos a um “artista”, que aproxima a sua obra da revelação de uma verdade
íntima, seja responsável pela identificação de tantos de nós com os seus
estados de alma, com os seus retratos à la minuta de um quotidiano resgatado à
banalidade por lampejos de beleza ou por inesperados confrontos com o que nos
desafia. Do particular para o universal sem se diluir na amálgama do comum.
Os grandes
artistas, como Jorge Palma, têm o condão de nos municiarem com o vocabulário
que descodifica as nossas emoções, ultrapassando inibições e reabilitando a
vulnerabilidade, num movimento que exprime a franqueza que não se sente
limitada pelos momentos de fraqueza. Que nunca tenha pretendido ser um modelo
de virtudes, aproxima-o ainda mais de todos nós. Que tenha perseguido com
sucesso o virtuosismo, esse zénite onde se conjugam o domínio técnico e a
expressividade, aproximou-nos dele, enfeitiçados pelas melodias que
transportavam as palavras que nos descobriam.
“Põe-me o
braço no ombro / Eu preciso de alguém / Dou-me com toda a gente / Não me dou a
ninguém.” Que outros quatro versos expressariam melhor o vazio existencial de
uma vivência moderna cheia de ligações em modo fast life? E, depois,
quando menos se espera, damos por nós a recitar: “Mandaste a minha solidão
embora / Iluminaste o pavilhão da aurora / Com o teu passo inseguro / E o
paraíso no teu olhar”. Encostámo-nos ao Palma. Como não, se ele nos disse:
“Tudo o que vi, estou a partilhar contigo / O que não vivi, um dia hei-de
inventar contigo”?
E agora? Que
fazer face à ausência? Habitar o bairro do amor, onde “o tempo morre devagar” e
“há quem pergunte a sorrir / Será que ainda cá estamos no fim do Verão?” E
cavalgar a memória como membros irrenunciáveis do Palma’s Gang.

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