O DUO PAI E FILHA
O Conjunto Pai e Filhos é um digno
representante da música popular e tradicional portuguesa, cuja obra pode ser
escutada no Spotify. Já o Duo
Pai e Filha é um tandem político-ideológico assente em valores tradicionais e
populistas — pátria, família, Deus (quando convém) — com presença significativa
em podcasts, ecrãs televisivos e colunas de jornais. O seu papel
principal consiste em, para além de espalharem o evangelho dos valores
tradicionais, enumerar argumentos que neguem o carácter extremado de determinadas
organizações políticas, que são, no entender deles, sempre “soberanistas”,
“nativistas”, contra o multiculturalismo, mas nunca, jamais, “uma ameaça
existencial à democracia”.
O Duo Pai e
Filha navega nas nuvens da credibilidade académica, alinhavando um discurso
mais ou menos sofisticado a que adiciona uma dose de souplesse. Porém,
como bons ideólogos orientados para os resultados práticos, podem deplorar a
linguagem, o estilo ou a falta de método das organizações que apoiam, mas não
deixam de reconhecer a sua utilidade, dado que os grunts extremistas
funcionam como tropa de choque do movimento populista, uma espécie de primeira fase
de consolidação no terreno da “implosão de velhos consensos”. Tudo o resto é
secundário. É por isso que para Teresa Nogueira Pinto é irrelevante que a AfD seja
classificada em 5 estados alemães como uma organização de extrema-direita, ou
que Ulrich Siegmund tenha participado num encontro com activistas radicais de
extrema-direita e neonazis, que estimule nos seus comícios o grito “Sieg!
Mund!” ou que se recuse a concordar que o Holocausto foi o pior crime contra a
Humanidade. E é por isso que Jaime Nogueira Pinto, que como bom conservador
deveria ser institucionalista e defender a preservação dos rituais e dos
procedimentos do poder executivo, nem pestaneja perante os ataques ao Estado de
direito perpetrados pela administração Trump, uma pessoa “excessiva na
linguagem”, “errática nas políticas”, “inconstante na táctica mas teimoso na
estratégia”, e que ele qualifica de “revolucionário”.
Teresa
Nogueira Pinto resvala para o sofisma em artigo no Expresso quando
alerta para o facto de estarmos num período fértil para “movimentos
verdadeiramente extremistas”, pelo que supostamente não deveríamos gastar
“rótulos” como “neonazi” ou “fascista” em agremiações que não o serão, evitando
que quando uma suposta verdadeira ameaça emergir, ninguém acredite. Eis um
argumento reversível, dado que a sua grelha de critérios é tão excessivamente
elástica que se revela inoperacional. No seu template nunca nada é
extremista, tudo é apenas o produto do “desfasamento entre a as opiniões
dominantes no espaço público e as escolhas dos eleitores.” E os militantes que
dizem verdades inconvenientes são apenas “fruta podre”.
Jaime
Nogueira Pinto em entrevista à Rádio Renascença exemplifica de forma eloquente
a instrumentalização (ou a relativização) das convicções religiosas, através da
sua utilização selectiva ao serviço do argumento do dia. Inquirido se o
acolhimento não é um valor cristão, e confrontado com uma passagem do Livro do
Êxodo (“Não maltratarás nem oprimirás os estrangeiros”), contrapôs que “os
textos evangélicos (.) servem para tudo” e citou Cristo na parte em que ele diz
“Não vim trazer a paz, mas a espada”. Onde residem, então, a misericórdia, a
compaixão e o humanismo? Ele tem a resposta certa, assente, certamente, em
décadas de inquietação intelectual, de análise de dados empíricos e de
observação privilegiada da alma humana: “Os valores cristãos são metas para que
devemos tender. Somos imperfeitos.”

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