O MONÓLOGO DO ACOSSADO

 


Foi na quinta-feira (não sabemos se inspirado por Cavaco, o da “Quinta-feira e outros dias”) que o primeiro-ministro se disponibilizou para “dar a cara neste momento difícil”. O formato foi o preferido dele: comunicação solene sem direito a perguntas. Falou directamente aos portugueses, de sorriso ausente, com uma pose algo gingante, alternando entre o apoio da perna esquerda e o da perna direita e com o olhar no horizonte, por cima e para além das câmaras, lá onde o eleitor reside. O tom do discurso oscilou entre a autoconfiança no desempenho governativo (“governar é fazer escolhas e estas são as nossas escolhas”; “não troco, não trocamos este rumo por nenhum outro de nenhum estado-membro da União Europeia”) e o exercício da compaixão (“sentimos as vossas angústias”; “nós sentimos o vosso sofrimento, a vossa inquietação”; “o momento é duro”). A síntese do discurso, da mensagem a passar, está reflectida na frase: “Temos de equilibrar s sensibilidade social com a responsabilidade financeira”. Daí que a performance discursiva se tenha dividido entre o relatório financeiro das medidas adoptadas para mitigar o nosso “sofrimento” e o sermão empático para uma espécie de Igreja de Luís Montenegro dos Santos dos Últimos Dias.


Deve ter havido um tempo em que Luís Montenegro imaginou que uma década de poder se estendia como uma passadeira vermelha diante dos seus abençoados pés. Uma esquerda entre o debilitado e o coma profundo, um procurador amigo a gerir o Ministério Público, o ex-director da Polícia Judiciária como ministro, um excedente orçamental a gerir a seu bel-prazer e um populista mentiroso compulsivo como líder da oposição que ele julgava ser capaz de controlar. Agora a década “reformista” parece delírio, mas é possível que ele a julgue ainda possível. É uma questão de crença (ou, como ele gosta de pôr a questão de forma sincopada/silabada: “a-cre-di-tar”).


Já não bastava o desastre na saúde (onde o Plano de Emergência e Transformação na Saúde, aprovado em Maio de 2024, à data de hoje só pode ser encarado como uma anedota) e as sequelas da “reforma” da Educação, e eis que as consequências da acção política de Trump (o tal que que o iluminado Hugo Soares não trocava por Kamala Harris) se reflectem nessa coisa tão prosaica chamada “custo de vida”. Acossado pela má avaliação que os portugueses fazem da acção do seu Governo e do seu próprio desempenho, alertado pelos correligionários para o facto de a imagem de “certinho” e “confiável” estar a render dividendos políticos a José Luís Carneiro e irritado com o sniper Passos Coelho (que, porém, não é candidato a “coisíssima nenhuma”, senão a estimular o reformismo do PM), Montenegro oferece-nos sensibilidade e bom senso. Que é, como sabemos, o título de um livro de Jane Austen, que, por sua vez, tem uma obra póstuma chamada “Persuasão”, qualidade indispensável a um político e que começa a escassear ao Luís. O seu único verdadeiro trunfo é que ninguém quer eleições. “Deixa a gente ser feliz / Deixa o Luís trabalhar e um novo futuro vai acontecer”? O resultado do trabalho do Luís pode muito bem ser que o próximo “futuro” que “acontecer” dispense o seu contributo.


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