E SE O CR7 QUISER SER O NOSSO TRUMP?
Eles têm em comum um ego descomunal, uma
colossal falta de noção e uma aversão epidérmica à contrariedade que os
conduzem à vizinhança da impunidade, da prepotência ou da tirania. São ambos
bilionários: a Forbes avaliou a fortuna de Trump em cerca de 6 mil
milhões de euros e o património líquido de Cristiano Ronaldo em aproximadamente
mil milhões de euros. Partilham o interesse pelos negócios imobiliários: o
americano aposta em clubes de golfe e resorts, mas também em edifícios
residenciais e comerciais, enquanto que o português tem uma parceria com o
Grupo Pestana, que se materializou no conceito de CR7 Lifestyle Hotels. O ponto
de intersecção deste interesse comum deu-se quando CR7 adquiriu um apartamento
na Trump Tower, que posteriormente vendeu por cerca de metade do preço, the
art of the deal em acção: 1-0 para Trump. Outro interesse comum é a área
dos média. Donald Trump é o principal accionista da TMTG (Trump Media &
Technology Group), detentora da Truth Social, e enquanto Presidente
tem construído um padrão de interferências, restrições e censuras à acção da
comunicação social tradicional, privilegiando as empresas com afinidades
ideológicas e as redes sociais. Cristiano Ronaldo é o maior accionista
individual da Medialivre (CMTV/Now/Sábado/Jornal de Negócios) e detém uma
“participação relevante” na LiveMode TV, plataforma de streaming de
conteúdos desportivos. Por diversas vezes tem mostrado o seu desagrado com a
cobertura noticiosa de que é alvo. Numa entrevista a Piers Morgan chegou a
afirmar: “Eu não gosto de ler, porque sei que 90 por cento do tempo é lixo, a imprensa
é lixo, não dizem a verdade, estão constantemente a mentir sobre mim e a minha
família.”
As duas figuras já trocaram elogios. Donald
Trump considerou uma “honra” ter podido apresentar CR7 ao filho, Barron Trump,
que é “um grande fã” dele. Ronaldo já tinha dito na entrevista a Piers Morgan
que o Presidente americano “consegue fazer as coisas acontecer e eu gosto de
pessoas assim”. Em Junho de 2018, ao receber Marcelo Rebelo de Sousa na Casa
Branca, Trump afirmou a sua convicção de que se Ronaldo tivesse concorrido ao
cargo Marcelo não ganharia, ao que este retorquiu que “Portugal não é os Estados
Unidos”. Se é verdade que o futebolista nunca verbalizou ambições políticas,
será tão absurdo imaginá-lo em Belém, um cargo largamente simbólico, talhado
para políticos com vocação ecuménica ou para personalidades carismáticas? Morten Hjulmand em declarações à Sport TV da Dinamarca não teve dúvidas: “Se [CR7)
concorresse à Presidência, ganharia.” Em
Novembro de 2025, num artigo para o Observador intitulado CR7 é umActivo Geopolítico, Redstone Pires previa que “Cristiano Ronaldo pode
emergir como um Líder Político-Social num futuro próximo”. E em Julho deste
ano, a sempre fulgurante (e também membro dos E.F - Ególatras Famosos) Sandra Felgueiras escrevia no site da CNN Portugal que “enquanto tantos governantes passam pela política sem
deixar marca, Ronaldo continua a fazer milhões de portugueses sentirem orgulho
em dizer de onde vêm.”
Portanto, em
2036 (depois de Seguro ter completado dois mandatos em Belém) ou em 2031 (se
por desprendimento ou por ter cumprido a sua missão de unir os portugueses, o
António José decidir retirar-se para o remanso de Penamacor), Cristiano Ronaldo
poderá tentar “fazer as coisas acontecer” e, contrariando Marcelo, provar que
Portugal pode ser os Estados Unidos. E quem melhor para “implementar” a
“mentalidade Cristiano Ronaldo” do que o próprio no papel de Chefe de Estado?
Só vejo um obstáculo de monta nesta putativa cavalgada heróica rumo a Belém: a
possível candidatura de Cristina Ferreira. Que não só gosta de política, como
fez questão de explicar que “não há nada em que eu me meta que não tente fazer
da melhor forma que sei e fazê-lo de forma perfeita”. Seria um duelo de
perfeccionistas. A tempestade perfeita.

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